« As “aparições” de Fátima » – A. Borges

« As “aparições” de Fátima »

By: Anselmo Borges


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1. Perguntam-me por vezes se acredito em Fátima. Respondo que Fátima não faz parte da fé católica, pode-se ser católico e não acreditar em Fátima. De qualquer forma, Fátima não é o centro do catolicismo.

Acrescento que não me repugna aceitar que houve em Fátima uma experiência religiosa. Os pastorinhos tiveram uma experiência religiosa, mas, evidentemente, foi uma experiência de crianças e à maneira de crianças, e enquadrada em esquemas próprios da sua visão do mundo e da religião, concretamente, a partir daquilo que ouviam na igreja e em casa. Por exemplo, nesse tempo, havia as famosas “missões”, com pregadores que chegavam armados com pregações aterrorizantes sobre o inferno, contra os pecadores, e, assim, é claro que a sua experiência teve aspectos benfazejos, mas também e talvez sobretudo aspectos tremendamente negativos, com dimensões de verdadeiro terror, quando, por exemplo, Nossa Senhora lhes teria feito ver as almas a arder no fogo do inferno. Que mãe agiria deste modo com os filhos, sobretudo na idade dos “videntes”, ainda crianças? Estou convicto de que essas imagens lhes tolheram a existência.

2. Fico a saber pelo biblista Ariel Álvarez Valdés, em Quién era la serpiente del Paraíso?, evd, 2016),  que o fenómeno das aparições de Maria remonta aos primeiros séculos da Igreja, sendo o primeiro caso conhecido do século III, com São Gregório Taumaturgo, bispo de Neocesareia, na Ásia Menor. Três séculos mais tarde, o papa Gregório Magno conta como Maria apareceu de noite a uma menina, para anunciar-lhe a sua morte próxima. O caso mais extraordinário teria acontecido com São João Damasceno, século VIII, a quem Maria teria aparecido para restituir-lhe a mão direita, cortada pelo governador de Damasco. Foi durante a Idade Média que proliferaram as visões e as profecias, algumas tão fantasiosas que um teólogo do século XIII, o franciscano David de Augsburgo, se queixava: “Parece que a revelação de coisas secretas e futuras é cada vez mais comum e seduz numerosas pessoas, que crêem que vem do Espírito Santo o que na realidade é invenção da sua própria sugestão ou de uma inclinação errónea. Já estamos cansados de tantas profecias”. Entre 1928 e 1975, contaram-se mais de 300 manifestações de Maria em diferentes partes do mundo. O Dicionário das aparições da Virgem, de R. Laurentin, publicado em 2010, recolhe e analisa 2567 encontros de videntes com Maria.

3. Estou de acordo com o biblista, quando distingue entre aparições e visões. Maria não pode aparecer a ninguém. “Nunca o fez nem pode fazê-lo”. De facto, quem partiu para a outra vida não tem um corpo físico e, por isso, não pode ser visto nem ouvido, como acontece com os vivos deste mundo. Se fossem aparições, todos os presentes veriam e ouviriam. Trata-se, pois, de visões, isto é, de experiências subjectivas, não objectivas. Se, numa casa, uma pessoa entra, todos a verão: isso é uma “aparição”. Se alguém começar a dizer que está a ver a Virgem Maria, trata-se de uma “visão”. Em Fátima, só os pastorinhos a viram, tratando-se, portanto, de visões e não de aparições. Mesmo as centenas de pessoas que disseram ter presenciado o Sol a girar à maneira de uma bola de fogo não observaram um facto real, mas tiveram uma “visão”, embora colectiva. Aí está a razão por que, fora de Fátima, nos países vizinhos, ninguém o viu a girar: se tivesse girado, “o sistema solar teria ido pelos ares”.

Por outro lado, embora se trate de visões, não são necessariamente delírios. Em determinadas ocasiões, uma pessoa pode ter “autênticas experiências visionárias divinas”. Trata-se então de revelações com mensagens para o próprio, chamando-se por isso “privadas”. Quando “a hierarquia aprova uma manifestação mariana, aprova apenas o culto, a devoção, a oração sob determinada forma, mas não a  visão nem as mensagens”.

Existem critérios para se saber se uma revelação privada pode ser autêntica? Há sobretudo um, essencial: não pode contradizer a realidade da Bíblia enquanto Palavra de Deus. “Maria não pode ir contra Deus”. Ora, frequentemente, isso acontece. Por exemplo, enquanto nos Evangelhos Maria é discreta, pode, nas revelações privadas, assumir um papel preponderante. Sobretudo e contra o Evangelho, notícia boa e felicitante, as suas mensagens são “lúgubres, tétricas, sombrias”. Por vezes, há mesmo afirmações heréticas, como quando, também em Fátima, se diz que ela disse que é ela que “detém o braço castigador do seu Filho, que quer destruir a humanidade”. Maria aparece então como sendo melhor do que Jesus e o Deus do Evangelho. Dá-se esta contradição: os fiéis, “em vez de procurarem protecção em Deus, procuram protecção contra Deus!”…

4. Uma das perguntas que qualquer teólogo atento faz, quando olha para Fátima, mas também, de modo mais geral, quando pensa na importância que Maria alcançou na Igreja e sobretudo na devoção dos fiéis católicos, tem a ver com as razões dessa importância, uma importância tal que chega a colocar nossa Senhora “contra” o Deus do Evangelho.

Uma dessas razões, fundamental, encontra-se no patriarcalismo da Igreja católica. Realmente, aparece na Igreja uma omnipresença do masculino: Deus é masculino, e há o Pai, o Filho, o Espírito Santo e o Papa, os Bispos, os Padres, todos do sexo masculino… A socialização das crianças dá-se no masculino, pois uma menina também é baptizada, em princípio, por um padre, verá o padre a presidir sempre, confessar-se-á, já mulher, a um padre. 

Depois, tradicionalmente, o pai figurava como representante da Lei e da ordem. Os pais quase não podiam manifestar afecto aos filhos. As mães, no contexto de imporem respeito às crianças, chegavam a dizer-lhes: eu digo ao pai e vais ver…

Portanto, no contexto desta Igreja patriarcal, com ausência do feminino, a que é preciso acrescentar as pregações tradicionais do medo em relação a Deus Pai, aparece Nossa Senhora como a Mãe terna e acolhedora, contraposta ao Deus que atemoriza.

5. Impõe-se, portanto, evangelizar Fátima, a começar pelo Deus de Fátima, o que vai implicar um longo caminho. Foi um grande bispo, Manuel Vieira Pinto, bispo em Moçambique, que me contou que, encontrando-se um dia em Fátima, se deparou com uma senhora que, de joelhos, se arrastava a caminho da Capelinha das Aparições. Na tentativa de demovê-la, pois o Evangelho não é favor do sacrifício pelo sacrifício, disse-lhe que Deus não queria aquilo e que ele, bispo, até podia substituir a promessa, por exemplo, pela ajuda a uma obra social. Insistiu, sublinhando que assumia a responsabilidade. A senhora, porém, respondeu-lhe: “Vá com Deus, senhor bispo. Não foi a si que eu fiz a promessa”.

É preciso respeitar o sofrimento das pessoas e manifestar-lhes simpatia activa na sua dor, compreendendo que, na sua aflição, até fizeram uma promessa, pois foi isso que viram nas relações sociais e numa religião de compra-venda, de promessas. Mas é necessário reconhecer também que o que se passa em Fátima com pregações apelando à penitência e aos sacrifícios não está de acordo com o Evangelho. De facto, até etimologicamente, a palavra Evangelho significa notícia boa e feliz. O Evangelho segundo Marcos começa assim: “Princípio da Boa Nova de Jesus Cristo, Filho de Deus. Jesus pregava o Evangelho de Deus e dizia: completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo: mudai de mentalidade e acreditai na Boa Nova”. Habitualmente traduz-se: “fazei penitência”, mas, no original grego, está: “Metanoeite”, que significa: mudai de mentalidade, de pensamento, de coração. Não está: “Fazei penitência”. E Jesus proclamava: “Ide aprender o que isto quer dizer: Deus não quer sacrifícios, mas misericórdia”. No entanto, frequentemente, talvez porque ao poder e às autoridades interessa cultivar o medo, o Evangelho tornou-se de facto uma má notícia. Deus, que Jesus proclamou como Amor, Liberdade criadora, Fonte de alegria e realização plena, acabou por ficar associado a tristeza, enfado, medo, castigo, vida tolhida, sentimento de culpa, juízo final, infantilismo. Para esse “Disangelho”, como lhe chamou Nietzsche, foi decisiva a infiltração da ideia de que Deus, para aplacar a sua ira e reconciliar-se com a humanidade, precisou da morte do próprio Filho na cruz. Esse seria um deus vingativo, cruel e monstruoso. Mas então, se Deus fosse vingativo e cruel, também nós, os seres humanos, poderíamos exercer vingança e crueldade. Faço, porém, notar que o teólogo Joseph Ratzinger no livro Fé cristã ontem e hoje, traduzido para francês em 1976, erguendo-se contra a teologia da “satisfação”, rejeitou a noção de um Deus “cuja justiça inexorável teria exigido o sacrifício do seu próprio Filho. Esta imagem, apesar de tão espalhada, não deixa de ser falsa”.

A evangelização de Fátima também impõe ter cautela com afirmações como a de que, no caso do Papa João Paulo II, Maria desviou a bala que iria matá-lo. A concepção de um Deus interventor contra as leis da natureza mediante milagres no sentido estrito implica uma imagem falsa de Deus, que leva ao ateísmo, porque supõe um Deus fora do mundo, que, de vez em quando, vem dentro e vem para uns e não para outros.

6. Independentemente de todas as considerações teológicas, é um facto que Fátima constituiu e constitui, para multidões, lugar de  paz, alívio, esperança, confiança, conversão. O teólogo Frei Bento Domingues disse-o de modo inultrapassável: “Fátima é o cais de todas as lágrimas dos portugueses” e não só. É dever da hierarquia continuar a evangelizar Fátima e a procurar transparência no que ao dinheiro diz respeito.

Fátima existe e muitas pessoas fizeram e poderão continuar a fazer lá experiências boas de Deus. Porque não utilizar então Fátima, evangelizada pelo Deus de Jesus, que é Amor e Fonte de Vida, Alegria, Perdão e Beleza, como grande espaço de interioridade, meditação e mudança de mentalidade e até de encontros ecuménicos e de diálogo inter-religioso, a favor da justiça, da paz, da reconciliação entre os homens e da abertura ao Mistério, como aliás já acontece? A quem receie que o anúncio do Deus-Amor poderia levar ao “vale tudo” e à libertinagem seria bom lembrar que quem se sente autenticamente amado com amor de verdade e sem ingenuidades rousseaunianas fica religado (um dos étimos de religião é religare, religar) a Deus e ao Bem e aos outros, a partir de dentro e não por medo.


Author

Anselmo Borges is a catholic priest of the Portuguese Missionary Society. He obtained his Doctorate degree in Philosophy by the University of Coimbra and is at present a Professor in the Faculty of Letters of the same university. He earned his licentiate in Theology from the Gregorian University in Rome and has a Diplôme d’études approfondies (D.E.A.) in Social Sciences from the École des Hautes Études en Sciences Sociales in Paris, France. He is also a Professor in the Faculty of Medicine of the University of Porto and University of Coimbra. Some of his published works are Marx ou Cristo?Janela do (In)visível; Religião: Opressão ou Libertação?Morte e EsperançaCorpo e Transcendência; Deus no século XXI e o futuro do cristianismo (coord.); Janela do (In)finitoDeus e o sentido da existênciaReligião e Diálogo Inter-Religioso.He is a columnist for the “Diário de Notícias”, an important daily Portuguese newspaper.

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