Concilium

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Cesar Kuzma – « Missão e identidade do Povo de Deus: uma Igreja em saída e chamada ao Reino »

1. Urgências e exigências atuais – o chamado 

Se pudéssemos definir a eclesiologia do Papa Francisco em uma única frase, esta definição, com certeza, seria a de “uma Igreja em saída”, como ele bem insistiu na Evangelii Gaudium (EG)[1] e em outros documentos e expressões (demais textos, discursos e entrevistas). Poderíamos até completar, a fim de oferecer um destaque melhor, tendo em vista elementos que ele mesmo nos oferece por seu testemunho e práxis: uma Igreja em saída, na ousadia, no seguimento e na misericórdia. Seria uma percepção mais justa e coerente, já que notamos que ele insiste nesta prática e percebemos que nas suas atitudes esta é uma provocação constante. 

No entanto, isso nos leva a algumas inquietações e indagações: qual é a razão desta saída? Para onde, para quem, por que e por quem saímos?… O que nos chama, desde fora? E o que nos impulsiona, a partir de dentro?

A intenção que dispensamos com estas perguntas é a de buscar uma fundamentação teológica/escatológica e um horizonte histórico/social para esta saída, dentro das exigências e urgências atuais que o chamado de ser cristão nos coloca, nos convida e nos faz caminhar enquanto Igreja, como Povo peregrino. Isso quer dizer que a saída é motivada por uma ação primeira (desde fora), onde se faz a experiência de um chamado que nos convida a um encontro novo, pleno e definitivo, num Reino que nos é oferecido livremente, onde a alegria nos envolve e nos incita à missão (a partir de dentro, pela ação do Espírito), através da qual oferecemos a nossa ação e construímos um mundo novo, na ótica do Reino, capaz de buscar e gerar amor, justiça e paz. De acordo com a Evangelii Gaudium, é pela alegria do encontro que nós saímos (EG 3), e não se trata de uma fuga ou algo assim, mas de um encontro concreto e real com o ressuscitado, que se faz perceber na história, identificado com o crucificado, com os dramas e tramas, com as alegrias e angústias, onde a esperança se faz forte e nos garante na fé. 

Estas perguntas que acima mencionamos, nos levam ao encontro de duas palavras-chaves da missão eclesial e elas estão na base da origem da Igreja, como fontes primárias que convidam a esta eterna novidade e que conduzem o caminhar da Igreja na história, e para além da história. As palavras são: evento e anúncio. Duas palavras-chaves que se ligam mutuamente e estão totalmente relacionadas com o ser e o fazer da Igreja, em qualquer tempo ou lugar; e estas duas expressões estão ligadas diretamente ao que se quer e se espera de uma Igreja em saída, na perspectiva do Evangelho, dentro do espírito do Vaticano II e em sintonia com o que pede e espera Francisco. É onde evidenciamos o caráter teológico/escatológico deste processo: o evento que ali se diz, é a ressurreição. E o anúncio, é resultado da experiência do encontro com o ressuscitado, que não nos tira do mundo ou da história, mas ao se fazer conhecer naquele que foi crucificado, se transforma em testemunho vivo e libertador, gerando vida nova e antecipando a justiça e o futuro do Reino. Isto é: o futuro deste Reino, antecipado pelo encontro/experiência com o ressuscitado se faz conhecer na missão da Igreja, no construir de uma esperança que transforma.[2] Sem evento não há anúncio, e a veracidade do evento é garantida pelo anúncio, pois é fruto de uma experiência verdadeira, que transborda, cria laços, une esperanças, solidariza-se às dores, partilha dons e busca a unidade. 

Se olharmos para os relatos bíblicos, os mesmos nos dizem que o resultado deste evento e o anúncio que com ele se opera não se condicionam em algo meramente individual (mas também não inibe ou anula este fato), pois a alegria transbordante faz tocar o outro, expressar-se no outro e para o outro, trazendo coletividade ao fato experenciado e gerando comunidade na afetividade que se desprendeu. É o que nos interessa aqui nesta reflexão, pois este coletivo/comunidade se traduz e se reconhece como um Povo, um novo Povo de Deus que vive e se alimenta deste evento fundante e a urgência do anúncio coloca este Povo como sujeito na história, atuante numa nova prática espelhada e alimentada pelo seguimento/caminho do homem de Nazaré.  

É um Povo inserido na história e disposto a agir e transformar o mundo a partir da nova realidade produzida pelo encontro. Isso nos diz que o anúncio não se faz de forma abstrata, mas tendo em conta as urgências e as exigências de cada tempo e lugar, seguindo o exemplo de Jesus que se ocupou das coisas do mundo e por meio de palavras e ações trouxe vida e justiça para aqueles que o cercaram. A saída, então, se coloca diante dos desafios humanos, políticos e sociais, atenta a tudo que cerca a nossa realidade e disposta a oferecer – de forma livre e aberta – um caminho, uma referência, um horizonte. Também aí Francisco tem chamado a nossa atenção, pois ao buscar centralizar a missão da Igreja no centro do Evangelho (em Cristo e em seu Reino), Francisco nos coloca diante dos problemas do mundo e das grandes causas da humanidade (basta olharmos para seus documentos, viagens e discursos). Insiste que a Igreja não existe para si mesma e refuta toda tentativa de autorreferencialidade, principalmente quando se torna altamente clerical (clericalismo!), que ele define como uma doença, pois foge da sua natureza e missão; ao contrário, pede coragem e ousadia para arriscar, deve tomar a iniciativa e “primeirear”, se envolver e rebaixar-se, se for o caso, à dor do outro (EG24); deve ir aos limites da história, para ter contato com o povo sofredor, levando vida e esperança, luz e novos caminhos. 

É por esta razão que a identidade da Igreja é marcadamente missionária e a Palavra anunciada visa à construção de uma nova realidade, no que foi anunciado como futuro, mas que também é presente do Reino. Isso faz com que a Igreja, identificada como Povo de Deus, caminhe na esteira do Evangelho e assuma um papel preponderante na sociedade. Ali ela é sal e luz (cf. Mt 5, 13-14), fermento de vida nova. Entre as urgências e as exigências, ela acolhe o chamado.

2. Uma Igreja que é Povo de Deus – a condição 

Uma tarefa urgente e necessária para a Igreja atual é resgatar este entendimento de que a Igreja é Povo de Deus. O Vaticano II, na Lumen Gentium, definiu que a Igreja é primeiramente mistério, porque nasce do coração do Cristo, vem e recebe a sua missão do próprio Deus e é conduzida pela força do Espírito (capítulo I). Em segundo lugar, definiu a Igreja como Povo de Deus (Vaticano II), fortalecendo a dimensão batismal e o sacerdócio comum de todos os fiéis; fato a ser considerado e que inovou de maneira eficaz a compreensão eclesiológica, não mais piramidal, mas na comunhão de todos os batizados que têm o Cristo como seu centro, e a ele e por ele exercem o seu ministério, sua vocação. Para muitos estudiosos do Concílio e para muitos teólogos (e nós aqui nos somamos a eles), esta é a chave interpretativa para se ler a eclesiologia do Concílio, uma chave hermenêutica de primeira grandeza. 

Evangelii Gaudium segue por este viés e esta parece ser uma intenção também que parte de Francisco, já que a categoria Povo é bastante cara a ele. Isso se faz notar não apenas pela valorização primeira que ele deu ao povo na Praça de São Pedro, no dia de sua eleição, que em si já foi um grande sinal, mas também pela maneira descentralizada que quer conferir à Igreja, pelo respeito para com os diversos ministérios, pela consulta feita às famílias (na época do Sínodo – 2014-15), também agora com o Sínodo da juventude (2018), e por uma série de argumentos do Vaticano II presentes em seus inúmeros discursos. Carlos María Galli confirma esta percepção, ao dizer que com Francisco temos “um duplo retorno do Povo de Deus”.[3] Isto é: pela valorização do povo em sua condição, pela amabilidade e afetividade com que se aproxima e assume os dramas humanos e sociais (fica evidente a questão dos pobres, dos migrantes), e aqui se evidencia bem a Teología del Pueblo, expressão argentina da teologia latino-americana, que tem influência nele,[4] mas também pelo resgate desta eclesiologia conciliar (do Povo de Deus), ao modo de que Francisco unifica Lumen Gentium,Gaudium et Spes e Ad Gentes, pois o Povo de Deus e sua missão no mundo não podem ser vistos de modo separado. “O Povo de Deus peregrino é sujeito da evangelização na história”[5]

Já na abertura do terceiro capítulo da Evangelli Gaudium, quando se trata do anúncio do Evangelho, ele já diz que:

A evangelização é dever da Igreja. Este sujeito da evangelização, porém, é mais do que uma instituição orgânica e hierárquica; é, antes de tudo, um povo que peregrina para Deus. Trata-se certamente de um mistério que mergulha as raízes na Trindade, mas tem a sua concretização histórica num povo peregrino e evangelizador, que sempre transcende toda necessária expressão institucional (EG 111).

Mais à frente, Francisco ainda diz:

Ser Igreja significa ser povo de Deus, de acordo com o grande projeto de amor do Pai. Isto implica ser o fermento de Deus no meio da humanidade; quer dizer anunciar e levar a salvação de Deus a este nosso mundo, que muitas vezes se sente perdido, necessitado de ter respostas que encorajem, deem esperança e novo vigor para o caminho. A Igreja deve ser o lugar da misericórdia gratuita onde todos possam sentir-se acolhidos, amados, perdoados e animados a viverem segundo a vida boa do Evangelho (EG 114).

Trata-se, pois, de uma afirmação teológica que se encontra no projeto amoroso do Pai, que tem um sentido e uma vocação específicos, e que se volta a uma prática que implica o mesmo amor que transforma e anima, que resplandece a alegria de todo o Evangelho. É um povo que age na sociedade, pois também a constitui, rompendo aí a velha dualidade entre Igreja e mundo, já que a Igreja se constitui como povo pelas pessoas que estão no mundo, pelo seu aspecto histórico, geográfico e cultural, e, desta forma, ela é sinal ao trazer para esta realidade a luz do mistério de Cristo e de seu Reino, sem que para isso projete-se para fora desta realidade, o que seria uma fuga e um desvio, jamais uma missão. A missão que é confiada ao povo, e por isso ele é escolhido, é uma missão de anúncio do Reino que vem (futuro) e que já se faz perceber na realidade presente, no aqui e no agora. Voltamos aqui às nossas duas palavras-chaves: evento e anúncio. Francisco ainda diz que este “Povo” é um povo para todos (EG 112-113), que tem muitos rostos (EG 115-118) e que esta condição constitui uma riqueza em vários sentidos, não só antropológicos como também culturais, que se valem pela unidade produzida pela ação do Espírito. 

É importante se fazer notar também, que já no início do texto da Exortação, quando ele fala deste novo ardor missionário que deve transparecer na Igreja, o que seria o grande objetivo desta Exortação, ele refere-se ao povo de Deus enquanto povo de missão. Ali ele se utiliza da passagem bíblica de Lc 10, que trata da missão e envio dos 72 discípulos, que constituem um grupo maior do que os 12 e que são enviados à mesma missão e com as mesmas recomendações (cf. Lc 9). Ou seja, uma Igreja missionária é em sua totalidade, aí ela é sinal da vocação que é chamada e na qual responde pela identidade de seu povo, de Povo de Deus. É diante desta realidade que Francisco convoca a Igreja a sair em sua missionariedade, no compromisso do Reino, na prática da justiça e na promoção da vida, da paz e da dignidade humana, principalmente no resgate dos pobres e descartáveis da sociedade. Faz-se valer tudo o que se projetou para a ação da Igreja no período pós-Conciliar, mas se enaltece que para este nosso tempo é de suma importância o anúncio feito na Alegria que nos toca a Boa Nova. Este tesouro não pode ficar guardado, mas deve transbordar, deve sair, deve ir além e cumprir a intenção que se propôs. A “quaresma” deve ceder o lugar à Páscoa (EG 6) e nela contemplamos a alegria da ressurreição, como promessa de vida, e vida nova. A Igreja sai em missão como povo, como povo ela é peregrina e trilha o caminho do Reino. Um Reino de justiça, de amor e de paz.

3. Um olhar sobre os leigos – uma Igreja em saída e chamada ao Reino

Entendemos que esta é uma urgência importante e ela se relaciona com o nosso tema. Em março de 2016, Francisco escreve uma carta ao Cardeal Marc Ouellet,[6] e nesta carta ele toca na questão do Povo de Deus e, em particular, no laicato. Diz que, desde o Vaticano II se falava muito da “hora dos leigos” (Congar e outros), mas que para ele, esta hora está “tardando a chegar”. Qual seria a razão? Basicamente, ele aponta duas: uma primeira, a passividade dos leigos. Também na Evangelii Gaudium ele destaca isso (EG 102), mesmo valorizando o papel e o esforço de muitos leigos. E em segundo lugar, esta passividade tem causas: na estrutura atual que não permite que os leigos assumam a sua vocação e missão. Mas também no clericalismo, uma doença que avança na Igreja há tempos. 

Todavia, se quisermos pensar em uma Igreja em saída e em uma Igreja que é chamada para o Reino, é necessário (ousado, mas necessário) pensar que os leigos devem se afastar deste modelo estrutural piramidal e hierarquizado e buscar novos caminhos, novas maneiras de viver a fé, dentro do chamado que é próprio da sua vocação, que é o mundo secular e as grandes causas da humanidade. Aqui está a vocação e a missão dos leigos! Ali devem ser sal e luz. Sujeitos da história. É onde os leigos, como Igreja que são, podem oferecer o seu testemunho e o seu serviço concreto. Observamos que as ações de Francisco também vão por aí. O cristianismo tem algo a dizer ao mundo e este “algo” não se limita a esfera do sagrado, mas é carregado de vida, justiça e esperança, capaz de propor um novo ethos, com um jeito leve e livre para dizer as coisas. Hoje, as estruturas eclesiais nos impedem, pois estão centralizadas em outro tipo de ministério e numa visão eclesiológica fechada (o Vaticano II ainda não aconteceu totalmente!), e mesmo a prática sacramental, do modo como é apresentada, favorece este desequilíbrio e a falta de protagonismo, pois o leigo é aquele que sempre recebe e que sempre responde de modo passivo ou submisso. É urgente resgatar a teologia do batismo como inserção da pessoa em Cristo, onde passamos a viver como novas criaturas no mundo onde estamos, diante das urgências e exigências, abertos ao novo e no seguimento sincero do homem de Nazaré (que sempre nos interpela), fazendo da sua práxis do Reino a nossa práxis de vida e de fé. 

Uma sociedade aberta exige leigos também abertos, capazes de dialogar e responder de modo autêntico e livre às exigências da fé e as interrogações que chegam à fé. Se a compreensão de ministério tem sempre como referência o dado sagrado ou a colaboração e cooperação com o ministério ordenado, os leigos jamais vão avançar para algo diferente. Poderíamos perguntar: como é ser leigo, sujeito eclesial, numa Igreja clericalizada? Impossível! É necessário romper isso! Francisco insiste em dizer que o clericalismo é um dos grandes males da Igreja hoje. É urgente, pois, pensar a desclericalização da Igreja, a valorização da condição de Povo, sujeitos da Igreja na história, construindo uma visão de unidade e igualdade de todos perante a missão que nos é confiada, e que respondemos (como Povo) na fé. 

Na Evangelii Gaudium Francisco nos pede ousadia, pede um arriscar, um primeirear, uma saída. Respondendo ainda as nossas primeiras questões, dizemos que a saída deve ser de modo kenótico, despojando-se de tudo o que nos prende e limita o nosso ser e estar, e ainda aberto às novidades que a missão nos provoca. Seguindo um panorama bíblico, dizemos que os leigos devem ter o mesmo sentimento de Cristo Jesus (cf. Fl 2,5), aí se encontra a saída, e é desta forma que devem se abrir para um novo caminho e um novo chamado à espiritualidade, uma nova forma de ser e estar no mundo. Eis a missão e a identidade do Povo de Deus: uma Igreja em saída e chamada ao Reino.


Notas

[1] FRANCISCO, Evangelii Gaudium. São Paulo: Loyola, 2013.

[2] Cf. Cesar KUZMA, O futuro de Deus na missão da esperança: uma aproximação escatológica. São Paulo: Paulinas, 2014. 

[3] Carlos María GALLI, “La reforma missionaria dela Chiesa secondo Francesco. L’ecclesiologia del Popolo di Dio evangelizzatore” in Antonio SPADARO; Carlos María GALLI (eds.). La riforma e le riforme nella Chiesa. Brescia: Queriniana, 2016, p. 48. Tradução nossa. 

[4]Juan Carlos SCANNONE, Teología del Pueblo. Raíces teológicas del Papa Francisco. Santander: Sal Terrae, 2017. 

[5]Carlos María GALLI, Op. cit., p. 51. Tradução nossa. 

[6] FRANCISCO, Carta do Santo Padre Francisco ao Cardeal Marc Ouellet, Presidente da Pontifícia Comissão para América Latina. Acesso em: 31/01/2018.


Autor

Cesar Kuzma é um teólogo leigo, casado e pai de dois filhos. Doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, onde atua como professor-pesquisador no Programa de Pós-Graduação em Teologia, desenvolvendo projetos nas áreas de eclesiologia/laicato e escatologia. É presidente da SOTER (Sociedade de Teologia e Ciências da Religião, do Brasil – para 2016-19). Livros em destaque: O futuro de Deus na missão da esperança: uma aproximação escatológica. São Paulo: Paulinas, 2014; Leigos e leigas: força e esperança da Igreja no mundo. São Paulo: Paulus, 2009.

Endereço: Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Depto de Teologia. Rua Marquês de São Vicente, 225. Ed. Cardeal Leme – 11 andar, CEP: 22.453-900, Rio de Janeiro, Brasil. 

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