Concilium

Luiz Carlos Susin

« Sine proprium e irmão das criaturas »



Concilium 2018-5. Ökologie und Theologie der Natur
Concilium 2018-5. Ecology and Theology
Concilium 2018-5. Ecología y teología de la naturaleza
Concilium 2018-5. Écologie et théologie de la nature
Concilium 2018-5. Ecologia e teologia della natura
Concilium 2018-5.

Linda Hogan, João Vila-Chã, Agbonkhianmeghe Orobator

Francisco de Assis, segundo o medievalista Jacques Le Goff, desempenhou um papel original na passagem do século XII para o século XIII, “enriquecendo a espiritualidade com uma dimensão ecológica, a ponto de aparecer como o inventor de um sentimento medieval da natureza que se expressou na religião, na literatura e na arte”.[1] O cristianismo do primeiro milênio guardou prudente distância da natureza cósmica e ecológica com suas energias frequentemente obscuras, pois em relação à natureza sempre se reacendia uma perigosa divinização pagã. No entanto, nos séculos XII e XIII esse sentimento de risco de paganismo ia-se acalmando, o que possibilitava uma relação mais amigável com a natureza. Não durou muito, porém: já nos séculos seguintes, a natureza, desprovida de sacralidade, permitiu começar uma relação “coisificante”, de experimentação e exploração, que Francis Bacon, em 1627, expressou como violação, comparando a natureza a uma “mulher pública” que se deve torturar para penetrar e arrancar seus segredos. A conclusão não é agradável: em dois mil anos de cristianismo, somente naquele breve tempo, quase num intervalo entre o excesso de mistificação e o excesso de objetivação, teria sido possível uma relação amistosa com a natureza.[2]

No atropelo da modernidade a mensagem de Francisco de Assis ficou eclipsada. Voltaire depreciou o santo mendigo que exaltaria uma vida improdutiva. No século XIX, porém, cooptado pelo romantismo, Francisco ganhou a figura de “santo dos passarinhos”.[3] Há um grande risco de redução romântica, pois de fato a hagiografia e a iconografia de Francisco podem nos dar uma impressão de intenso romantismo. Seu relacionamento com os elementos da natureza, especialmente com cada animal, é descrito de forma tão fraternal e coloquial, tão terna e compassiva, às vezes tão íntima, que temos a tentação de perguntar o que é real em toda essa poesia sobrecarregada de afetos e exclamações. Num clima de redução romântica, a própria declaração de São Francisco de Assis como patrono dos ecologistas por parte de João Paulo II em 1979, poderia reforçar mal-entendidos.

Precisamos começar com uma distinção já consagrada dos textos que nos servem de fontes para procedermos com uma hermenêutica adequada. É lugar comum entre os especialistas, quando se trata de “fontes franciscanas”, a distinção entre os escritos do próprio Francisco e as biografias que foram sucessivamente elaboradas ao longo de mais de um século. Aplicaram-se às fontes franciscanas as mesmas regras do método histórico-crítico dos estudos bíblicos, e chegou-se inclusive à distinção entre o “Francisco histórico” e o “Francisco da fé”.[4]

Francisco não é um escritor, mas temos textos de seu punho ou ditados por ele, embora sejam poucos e breves: exortações, bilhetes, cartas, compilações litúrgicas, o testamento que é um memorial, e, sobretudo, duas versões da Regra. Estas tem um processo coletivo de elaboração e experimentação, mas onde o verbo se encontra no singular considera-se voz do próprio Francisco. Somente a segunda, mais sóbria, tem o selo pontifício. No entanto a primeira está mais próxima do processo e experimentação da forma de vida franciscana. Tem, portanto, autoridade hermenêutica.[5]

Já os escritos hagiográficos têm uma história dramática. Os autores ora se inclinam a um estilo “edificante”, devoto e poético, com certo sabor heroico, para exaltar o santo e entusiasmar o leitor, ora tem caráter polêmico, com a intenção de legitimar formas mais radicais ou mais moderadas de seguimento e continuidade por parte das gerações de frades que sucederam a Francisco. Desses autores privilegiamos aqui dois: Tomás de Celano, por ter sido contemporâneo de Francisco e seu primeiro biógrafo. E São Boaventura, quase quarenta anos depois, encarregado de terminar a polêmica na disseminação de biografias conflitantes. Ele escreveu com toda sua fineza teológica uma biografia que deveria ser única e definitiva. Escreveu duas, e cópias das biografias anteriores acabaram sendo preservadas da destruição, de tal forma que hoje temos uma variedade de autoridades documentais − com seus contextos − reunidas nas fontes franciscanas.

O que nos dizem as fontes sobre nosso tema – a relação com a “natureza” − quando utilizamos os escritos de Francisco e quando utilizamos hagiógrafos do século XIII?

1. Decepção e novo olhar: sine proprium

Os votos de consagração religiosa tiveram variantes até ao século XIII. E dos três que conhecemos hoje – castidade, obediência, pobreza – o mais variável em seu enunciado foi o de pobreza voluntária.[6] Nem mesmo hoje em dia a consagração à forma franciscana de vida inclui um voto de “pobreza” − e justamente para os herdeiros do Poverello de Assis. Desde a primeira regra franciscana, permanecendo na regra aprovada, se diz ao invés textualmente: sine proprium. Inclui pobreza voluntária, mas suas conotações exigem algo mais profundo: o despojamento interior, de mente e de afeto, a renúncia ao “sentido de propriedade” que inclui a deposição da soberania da subjetividade e da identidade. Se aos monges do primeiro milênio era suficiente o propósito de abraçar a obediência, no caso franciscano seria suficiente o sine proprium. Não é, porém, algo tão simples, pois é um gesto voluntário mas não voluntarista. Sua profundidade de desenraizamento pode ser comparável à kénosis do hino paulino em Filipenses 2, precedido justamente por uma exortação a imitar os sentimentos de Cristo. Historicamente, não apenas em Francisco, mas em Bento, em Inácio de Loyola, em Chiara Lubich, etc. este processo começa negativamente: uma doença, uma decepção, um choque, uma guerra.

Francisco começa com uma grave, prolongada e agônica decepção. Ela o atinge de todos os lados: o velho ideal de nobreza e cavalaria o leva à catástrofe da prisão e à doença. O ideal da burguesia em ascensão, representada pelos negócios de seu pai, não cabem em seu coração generoso. O ideal religioso da vida monacal que ele buscou conhecer de perto lhe soa pesado. As festas bancadas com o dinheiro de seu pai, que ele oferecia aos companheiros de juventude e que prolongaram sua adolescência, se tornaram insípidas. Francisco jaz inteiramente decepcionado, profundamente ferido em seu narcisismo e em sua mania de grandeza.[7] É nesse contexto de vazio existencial que Celano anota um passeio de Francisco convalescente:

Nem a beleza dos campos, nem o encanto das vinhas, nem coisa nenhuma que é agradável de se ver conseguia satisfazê-lo. Admirava-se por isso de sua mudança repentina e começou a julgar loucos os que amam essas coisas.[8]

Em conclusão, até o encanto natural e o justo sentimento romântico, com a devastação de seus ideais e de suas relações, se ausentam. Assim começa, muito além de um voluntarismo, o sine proprium

Mas a este lado negativo se junta nova experiência, que permite a Francisco lembrar em seu Testamento como uma graça de conversão, o início de uma vida em penitência:

Foi assim que o Senhor me concedeu a mim, Frei Francisco, iniciar uma vida de penitência: como estivesse em pecados, parecia-me por demais amargo olhar para leprosos. E o Senhor mesmo me conduziu entre eles e eu tive misericórdia com eles. E enquanto me retirava deles, justamente o que antes me parecia amargo se me converteu em doçura da alma e do corpo. E depois disso demorei só bem pouco e abandonei o século.[9]

A transformação do doce em amargo e do amargo em doce é uma excelente metáfora de conversão: expulso pelo acúmulo de crises de seu espaço e relacionamentos anteriores, Francisco vaga pelo lado de fora e começa a encontrar novos relacionamentos e novos significados. Nada mais volta a ser como antes: a Vita Nova se dá no sine proprium.

Isso tem repercussão na Regra. David Flood deu especial atenção à relação com os bens e ao programa de sustento econômico do movimento franciscano, desenhado nos capítulos 7 a 9 da Regra “não-bulada”.[10] Em síntese: Como “menores”, os frades não assumam chefias e considerem o trabalho como uma “graça”, pois há os que não podem trabalhar – entre os quais os leprosos. O fruto do trabalho é a subsistência para si e para os que não têm a graça de trabalhar. Mas não reclamem salário como um direito. Se não houver paga, ou se não for suficiente, vão pedir esmolas. O capítulo 9, sobre a mendicância, desenvolve o que podemos chamar de “teologia da Mesa do Senhor”, uma prática do Bem Comum: todos são convidados a trabalhar para a Mesa do Senhor, e a esmola também é para a Mesa do Senhor, que, aliás, deu o exemplo em sua vida terrena. Portanto a mendicância é também uma evangelização, o testemunho e a oportunidade de participação na Mesa do Senhor. Rompendo a relação de propriedade natural entre trabalho e fruto do trabalho ou salário, Francisco e o movimento franciscano anunciam uma economia sine proprium, economia radical do dom, longe da meritocracia do liberalismo moderno.

Entre as legendas hagiográficas está a narrativa que ilustra de modo bem humorado o sentido do sine proprium. Em síntese: o inocente e excêntrico Frei Junípero cozinhava para o grupo, e decidiu fazer uma sopa para um confrade doente. Passou a cerca, pegou o porco do vizinho e cortou-lhe uma perna, já que precisava só dela. O vizinho furioso veio acertar com o guardião e este repreendeu Junípero de tal forma que perdeu a voz. Então Junípero, já anoitecendo, trouxe um pouco da sopa para o guardião com o fim de suavizar sua gargante, o que fez o guardião lhe passar novo sermão e se negar a tomar a sopa. Então Junípero pediu-lhe candidamente que segurasse a vela pois ele mesmo tomaria a sopa! Esta narrativa mostra não só o sine proprium em fatos exagerados, mas a perda do sentido de propriedade, e, com isso, também a perda de sentido da hierarquia. O sine proprium se consuma onde há a perda de sentido da propriedade, e não só de si mesmo mas dos outros.

2. A relação sine proprium em aliança gratuita com os animais

Francisco não é somente patrono dos ecologistas, mas, anterior à declaração de 1979, ele é “protetor dos animais”. É absolutamente necessário observar que não se iguala ecologia e animais. Pois os animais não são parte da paisagem. Como nós, eles se movem na paisagem, buscam seu alimento, convivência, etc. Inclusive na Escritura os animais estão ao lado dos humanos, participam da aventura comum da vida, dos infortúnios e da alegria do sábado.

Pode parecer estranho que o santo protetor dos animais tenha prescrito na Regra, em primeira pessoa, uma firme proibição de criar animais e andar a cavalo:

Ordeno a todos os meus irmãos, tanto clérigos como leigos, ao irem pelo mundo, ou morarem em lugar fixo, que de modo algum criem qualquer animal, nem junto a si mesmos, nem com outra pessoa, nem de qualquer outra forma. Nem lhes seja lícito andar a cavalo, a não ser que se vejam obrigados por doença ou por grande necessidade. (Regra não-bulada, 15,1-2)

Quanto à proibição de não andar a cavalo, a interpretação mais recorrente é de que os “cavaleiros” tinham status de nobreza, o que não era mais o caso para quem se tornava um irmão menor, identificado com a população simples dos minores.  Mas também se pode interpretar as duas proibições num sentido único: evitar o domínio e a disponibilidade de animais para si. Trata-se da renúncia à posse e uso indiscriminado de animais. Caso de doença seria exceção. Ambos os interditos e, portanto, as renúncias exigidas, soam como uma indisponibilidade do animal ao arbítrio, ao comprazimento e até mesmo à comodidade humana dos frades.

Tais interditos podem ser mais bem compreendidos através de uma narrativa que os biógrafos repetem: Junto à Porciúncula, lugar de referência dos frades itinerantes, morava uma cigarra que costumava cantar com suavidade. Por certo tempo Francisco a chamava, ela pousava em sua mão e, à ordem de Francisco, ela começava a cantar enquanto o próprio santo juntava seu canto de louvor. Cantavam até que ele a mandasse de volta para seu lugar. Depois de dias nesse jogo de jograis em que − no dizer de Celano − “ela estava sempre pronta para obedecer-lhe”, Francisco se dirigiu aos seus companheiros: “Vamos despedir nossa irmã cigarra, que já nos alegrou bastante aqui com o seu louvor, para que isso não seja causa de vanglória para nós”. Assim, despediu-a, ela foi embora e não mais voltou.[11]

O tom geral das narrativas povoadas de pássaros, de peixes, de cordeiros, de rica variedade de animais, é de um relacionamento inteiramente espontâneo, casual e gratuito, embora contínuo. Ou seja, convivência não programada, acontecimentos em pura graciosidade, em clima de liberdade de quem não tem desejo de posse e por isso assegura liberdade e confiança ao animal. Os hagiógrafos insistem que os animais corriam para Francisco, queriam ficar em sua companhia, só saiam quando admoestados, como por uma “licença” e “obediência”, duas palavras recorrentes dos hagiógrafos nas relações dos animais com Francisco que vamos examinar logo adiante. Até aqui o mais importante é compreender que, para Francisco, a relação com os animais se dava na condição de sine proprium, sem apropriação, o que lhe permitiu uma fraternidade criatural e uma reciprocidade que transcende o sentimento romântico, com consistência ontológica e pureza ética: ele viveu como criatura entre as criaturas, numa aliança e fraternidade criatural.

A narrativa mais detalhada de aliança está em Fioretti XXI,sobre a mediação de Francisco entre o lobo e os habitantes da cidade de Gúbio. Além da beleza literária, da estrutura narrativa transparente, tem uma lição duradoura: seu desinteresse de sine proprium lhe dá autoridade na mediação de aliança e capacidade de exercê-la com justiça e sem humilhação, levando à reconciliação vantajosa para ambas as partes, o humano e o animal. 

3. A profundidade e a largura da obediência sem hierarquia às criaturas

O clima de reciprocidade e aliança, de dons e serviços entre humanos e animais não significa que os animais estão à disposição dos humanos. Sobre isso, há uma oposição frontal entre um dos escritos de Francisco e os escritos de seus biógrafos. A hierarcologia da natureza, de fundo platônico-agostiniano, continuava presente no século XIII através da Escola de São Vítor, e influenciou a forma como Celano e, sobretudo, São Boaventura, descrevem a relação de Francisco com os animais.[12] O raciocínio dos biógrafos é padronizado: Francisco, em sua santidade, é o homem reconciliado do paraíso reconquistado. É Adão redivivo na aurora paradisíaca do mundo, a quem todas as criaturas se submetem em obsequiosa obediência. É por isso que as palavras “obediência” e “licença” são tão recorrentes, com animais felizes e respeitosos, sempre prontos à obediência. Assim, por exemplo, São Boaventura:

São Francisco, tão admirável e verdadeiramente celestial, que abrandou a ferocidade dos animais ferozes, domesticou os animais silvestres, ensinou aos mansos e reduziu à sua primitiva obediência a natureza animal que por causa do pecado se rebelara contra o homem. Esta é a verdadeira piedade que torna amigas as criaturas.[13]

Ou ainda: “A compaixão fazia dele um outro Cristo, a amabilidade o inclinava para o próximo, e uma amizade com cada uma das criaturas lembrava nosso estado de inocência primitiva.[14]

Tanto para Boaventura, como para Celano, “os animais obedecem a Francisco porque Francisco obedece a Deus”.[15]  Para Tomás de Celano,

O glorioso Pai Francisco, caminhando na via da obediência e abraçando perfeitamente o jugo da submissão a Deus, obteve uma grande dignidade diante do Senhor, de tal modo que as criaturas lhe obedeciam (…) só pode ser santa uma pessoa a quem as criaturas obedecem.[16]

De forma mais refinada, Boaventura confirma:

Havia o santo chegado a tal pureza que unia a carne ao espírito e o espírito a Deus em uma maravilhosa harmonia, e se via obedecido, por sua vez, por ordem de Deus, assim que ele expressava um desejo ou uma vontade, pelas criaturas submissas ao Criador.[17]

Mas prestando atenção aos mesmos hagiógrafos em outras narrativas, e diferentemente dessa hierarcologia em que o santo homem ordena e os animais obedecem, eles são, ao invés, profusos em narrar o relacionamento de Francisco com os animais na forma de reciprocidade, relações de mão dupla, com mútuo carinho e ternura, mútua atenção e socorro, descrições de uma real fraternidade e sororidade como entre sujeitos de uma grande família. Os biógrafos empregam os melhores adjetivos para descrever a compaixão, o cuidado, a escuta e a comunicação não só de Francisco para com os animais, mas também dos animais para com Francisco, com reciprocidade e socialidade profusas, longe da afirmação agostiniana de que não há possibilidade de vida social e moral entre humanos e animais. Uma das narrativas mais famosas, que se repete em profusão e exemplifica esta postura de convivência e reciprocidade, é a “pregação aos pássaros”[18].

Para Francisco, os animais não são metáforas ou evocações da psique humana, nem são simplesmente espécies, mas individualidades reais, com autonomia e capacidade de reciprocidade, e respondem com sua própria linguagem às palavras e gestos que lhes dirigimos. A memória edificante que os biógrafos de Francisco nos legaram vai muito além de certa cacofonia da teologia escolástica que seguia a formalidade aristotélica e a hierarcologia platônico-agostiniana.

Mas há mais, o principal deste item: Francisco mesmo, em uma única frase de seu punho, vai bem além da reciprocidade, e aceita a possibilidade de inverter a hierarquia: e se os animais – e animais ferozes – dispusessem de nós como bem entendessem, reconhecendo que nisso estaria a vontade de Deus, acataríamos a obediência devida a eles – os animais − e a Deus? Esse estranho desafio é igual ao que Francisco narra em sua parábola da Verdadeira Alegria. Nessa parábola, ditada em um tempo de dificuldade real com os caminhos da nova Ordem, elaborada em forma de diálogo, ele imagina: E se ele e Frei Leão, frades da primeira hora, ao chegarem em plena noite de neve a seu lugar de origem, à Porciúncula, e fossem rejeitados e expulsos; e se eles se dessem conta de que seria Deus mesmo que os teria colocado nessa situação, como reagiriam? Na sequência do diálogo ele conclui que a verdadeira alegria é a paciência que suporta tal absurdo em paz no meio da desolação, como Cristo na cruz. No caso dos animais, ele nos surpreende no final do seu criativo Elogio das Virtudes, justamente ao falar da obediência:

A santa obediência confunde todos os desejos sensuais e carnais e mantém o corpo mortificado para obedecer ao espírito e obedecer a seu irmão, e torna o homem submisso a todos os homens deste mundo, e nem só aos homens, senão também a todas as bestas e feras para que dele possam dispor o que quiserem, até o ponto que lhe for permitido do alto pelo Senhor.

Nesse último elogio às virtudes, em que radicaliza a obediência, Francisco acrescenta ao elemento conhecido pela ascética de seu tempo – a mortificação do corpo, dos desejos sensuais e mundanos em obediência ao espírito – a obediência para além de uma obediência hierárquica, na obediência alargada “do corpo ao irmão” e “a todos os homens deste mundo”. A originalidade maior, porém, que aqui pode causar estranheza é a obediência “a todos os animais e feras”. Portanto, numa ordem cada vez mais “des-hierarquizada”, ou cada vez mais invertida.

O teste último, afinal, são os animais em sua bestialidade e ferocidade, não em sua beleza e mansidão doméstica. Como no caso da Verdadeira Alegria que reside na paciência, a verdadeira e mais radical obediência não reside em obedecer hierarquicamente quem está acima, mas o que é considerado o mais ínfimo, o animal feroz e perigoso – para que disponham tanto quanto for permitido do alto. Nesse final há uma evocação do Evangelho de João (Cf. Jo 19,11), quando Jesus está diante de Pilatos, submetido a um poder absurdo, mas pelo qual ele interpreta a vontade do Pai: o convite ao amor que abraça a cruz. Os animais, como o irmão e como todos os humanos, podem ser a cruz que devamos carregar como um desígnio do alto, vivido na obediência e na paciência amorosa. Portanto, nada de complacência estética ou afetiva, mas uma radical espiritualidade criatural.

4. O Cantor da fraternidade das criaturas 

Só no final de sua vida, aos 44 anos, depois de renunciar à liderança da nova Ordem, muito doente, quase cego, cheio de dores, na madrugada de uma noite de tormentos, Francisco compõe o Cântico das Criaturas. Na antípoda do possível romantismo de sua juventude, ele canta com sobriedade de adjetivos a fraternidade do sol majestoso, da lua e das estrelas preciosas, da água casta e do fogo alegre, do vento e nuvens e da mãe terra que dão sustento. Une ao louvor das criaturas o perdão e a irmã morte da criatura humana. É bem verdade que “toda paisagem amada é um estado de alma” (G. Bachelard), mas essa verdade indica uma forma da própria alma ser e se comunicar com a paisagem. No entardecer de sua vida, Francisco tem uma alma absolutamente desapropriada, simples e transparente, e emergem de sua alma simples os adjetivos com que associa as criaturas. Seu canto, marco inicial da literatura italiana, é a plenitude de seu caminho de desapropriação e de relações fraternais.[19]

Assim podemos concluir: a) Não um gênio naturalmente romântico, mas uma decepção, uma “desapropriação” e um novo olhar são a condição prévia ao modo de Francisco se situar e se relacionar com a natureza. b) Não a obediência hierárquica sugerida por Celano e Boaventura, mas a renúncia à apropriação é que faz emergir uma verdadeira relação fraterna, recíproca e de aliança com cada criatura, especialmente com cada animal. c) A sua fé, com a perseverança na desapropriação cada vez mais radical, abre à fraternidade universal não abstrata ou por generalidade, mas com cada criatura, até a mais distante – as estrelas − e permite assim que ele se torne a voz e a “boca do universo” − como afirma Agostinho a respeito dos que salmodiam. É assim que emerge, no momento de maior dor, o “Cântico das Criaturas”.


[1] Jacques Le Goff, Saint François d’Assise. Paris : Gallimard, 1999, p. 7.

[2] Cf. Lázaro Iriarte, Vocazione Francescana: Sintesi degli ideali de San Francesco e di Santa Chiara. Casale Monferrato: Piemme, 1987, p. 223; Margaret Wertheim, Uma história do espaço, de Dante à Internet. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. Seguindo as representações do espaço, categoria fundamental para entender “natureza”, a autora sublinha a passagem da representação simbólica para uma representação “fisicalista” cheia de consequências no começo do Renascimento.

[3] Cf. Laure Solignac, « François d’Assise, les animaux et l’obéissance ». In: Christus nº 21, Janvier 2014, p. 32.

[4] Cf. As pesquisas e publicações de Caetano Esser se tornaram exemplo da nova exegese. Cf. especialmente Origens e Espírito Primitivo da Ordem Franciscana. Petrópolis: Vozes, 1972.

[5] Cf. Aldir Crocoli; Luiz Carlos Susin, A Regra de São Francisco de Assis. Apresentação e comentários. Petrópolis: Vozes, 2013.

[6] Cf. Jean-Marie Roger Tillard, Diante de Deus e para os homens: O projeto dos religiosos. São Paulo: Loyola, 1975, pp. 118-119.

[7] Cf. Marc Charron, De Narcisse à Jésus: La quête de l’identité chez François d’Assise. Montréal/Paris: Paulines/ Cerf, 1992.

[8] Tomas Celano, Vita Prima, II, 3.

[9] Testamento, I, 1-3.

[10] Frei Francisco e o Movimento Franciscano. Petrópolis: Vozes, 1986.

[11] Tomas Celano, Vita Secunda, XXX, 171.

[12] Cf. Lázaro Iriarte, opus cit., p. 219.

[13] Legenda Maior, XIII, 11 – ênfase nossa.

[14] Legenda Maior, VIII, 1 – ênfase nossa.

[15] Laure Solignac, opus cit., p. 41.

[16] Vita I, XXI, 61.

[17] Legenda Maior, V, 9.

[18] Tomas Celano, Vita I, XXI, 58. Os parágrafos seguintes são também ilustrativos.

[19] Cf. Eloi Leclerc, O Cântico das criaturas ou os símbolos da união. Petrópolis: Vozes, 1999 (2ª ed.), p. 17 ss.


Abstract

São Francisco de Assis é patrono dos ecologistas e protetor dos animais por razões rigorosamente evangélicas. Despojado de sentimentos românticos, a condição que possibilitou uma relação fraternal com os animais e com todas as criaturas, não foi a obediência hierárquica do paraíso recuperado segundo seus biógrafos, mas a radical desapropriação e disponibilidade à fraternidade sem hierarquias, segundo seus próprios escritos. 

Author

Luiz Carlos Susin é capuchinho, professor na Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana, em Porto Alegre, Brasil. Foi professor convidado na Universidade Franciscana Antonianum de Roma. Entre suas publicações: A Regra de São Francisco de Assis. Apresentação e comentários (Petrópolis: Vozes, 2013) e A vida dos outros. Ética e teologia da libertação animal. São Paulo: Paulinas, 2015.

Contact

Rua Juarez Távora, 171 Porto Alegre-RS 91520-100 Brasil.



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Precisamos começar com uma distinção já consagrada dos textos que nos servem de fontes para procedermos com uma hermenêutica adequada. É lugar comum entre os especialistas, quando se trata de “fontes franciscanas”, a distinção entre os escritos do próprio Francisco e as biografias que foram sucessivamente elaboradas ao longo de mais de um século. Aplicaram-se às fontes franciscanas as mesmas regras do método histórico-crítico dos estudos bíblicos, e chegou-se inclusive à distinção entre o “Francisco histórico” e o “Francisco da fé”.[4]

Francisco não é um escritor, mas temos textos de seu punho ou ditados por ele, embora sejam poucos e breves: exortações, bilhetes, cartas, compilações litúrgicas, o testamento que é um memorial, e, sobretudo, duas versões da Regra. Estas tem um processo coletivo de elaboração e experimentação, mas onde o verbo se encontra no singular considera-se voz do próprio Francisco. Somente a segunda, mais sóbria, tem o selo pontifício. No entanto a primeira está mais próxima do processo e experimentação da forma de vida franciscana. Tem, portanto, autoridade hermenêutica.[5]

Já os escritos hagiográficos têm uma história dramática. Os autores ora se inclinam a um estilo “edificante”, devoto e poético, com certo sabor heroico, para exaltar o santo e entusiasmar o leitor, ora tem caráter polêmico, com a intenção de legitimar formas mais radicais ou mais moderadas de seguimento e continuidade por parte das gerações de frades que sucederam a Francisco. Desses autores privilegiamos aqui dois: Tomás de Celano, por ter sido contemporâneo de Francisco e seu primeiro biógrafo. E São Boaventura, quase quarenta anos depois, encarregado de terminar a polêmica na disseminação de biografias conflitantes. Ele escreveu com toda sua fineza teológica uma biografia que deveria ser única e definitiva. Escreveu duas, e cópias das biografias anteriores acabaram sendo preservadas da destruição, de tal forma que hoje temos uma variedade de autoridades documentais − com seus contextos − reunidas nas fontes franciscanas.

O que nos dizem as fontes sobre nosso tema – a relação com a “natureza” − quando utilizamos os escritos de Francisco e quando utilizamos hagiógrafos do século XIII?

1. Decepção e novo olhar: sine proprium

Os votos de consagração religiosa tiveram variantes até ao século XIII. E dos três que conhecemos hoje – castidade, obediência, pobreza – o mais variável em seu enunciado foi o de pobreza voluntária.[6] Nem mesmo hoje em dia a consagração à forma franciscana de vida inclui um voto de “pobreza” − e justamente para os herdeiros do Poverello de Assis. Desde a primeira regra franciscana, permanecendo na regra aprovada, se diz ao invés textualmente: sine proprium. Inclui pobreza voluntária, mas suas conotações exigem algo mais profundo: o despojamento interior, de mente e de afeto, a renúncia ao “sentido de propriedade” que inclui a deposição da soberania da subjetividade e da identidade. Se aos monges do primeiro milênio era suficiente o propósito de abraçar a obediência, no caso franciscano seria suficiente o sine proprium. Não é, porém, algo tão simples, pois é um gesto voluntário mas não voluntarista. Sua profundidade de desenraizamento pode ser comparável à kénosis do hino paulino em Filipenses 2, precedido justamente por uma exortação a imitar os sentimentos de Cristo. Historicamente, não apenas em Francisco, mas em Bento, em Inácio de Loyola, em Chiara Lubich, etc. este processo começa negativamente: uma doença, uma decepção, um choque, uma guerra.

Francisco começa com uma grave, prolongada e agônica decepção. Ela o atinge de todos os lados: o velho ideal de nobreza e cavalaria o leva à catástrofe da prisão e à doença. O ideal da burguesia em ascensão, representada pelos negócios de seu pai, não cabem em seu coração generoso. O ideal religioso da vida monacal que ele buscou conhecer de perto lhe soa pesado. As festas bancadas com o dinheiro de seu pai, que ele oferecia aos companheiros de juventude e que prolongaram sua adolescência, se tornaram insípidas. Francisco jaz inteiramente decepcionado, profundamente ferido em seu narcisismo e em sua mania de grandeza.[7] É nesse contexto de vazio existencial que Celano anota um passeio de Francisco convalescente:

Nem a beleza dos campos, nem o encanto das vinhas, nem coisa nenhuma que é agradável de se ver conseguia satisfazê-lo. Admirava-se por isso de sua mudança repentina e começou a julgar loucos os que amam essas coisas.[8]

Em conclusão, até o encanto natural e o justo sentimento romântico, com a devastação de seus ideais e de suas relações, se ausentam. Assim começa, muito além de um voluntarismo, o sine proprium

Mas a este lado negativo se junta nova experiência, que permite a Francisco lembrar em seu Testamento como uma graça de conversão, o início de uma vida em penitência:

Foi assim que o Senhor me concedeu a mim, Frei Francisco, iniciar uma vida de penitência: como estivesse em pecados, parecia-me por demais amargo olhar para leprosos. E o Senhor mesmo me conduziu entre eles e eu tive misericórdia com eles. E enquanto me retirava deles, justamente o que antes me parecia amargo se me converteu em doçura da alma e do corpo. E depois disso demorei só bem pouco e abandonei o século.[9]

A transformação do doce em amargo e do amargo em doce é uma excelente metáfora de conversão: expulso pelo acúmulo de crises de seu espaço e relacionamentos anteriores, Francisco vaga pelo lado de fora e começa a encontrar novos relacionamentos e novos significados. Nada mais volta a ser como antes: a Vita Nova se dá no sine proprium.

Isso tem repercussão na Regra. David Flood deu especial atenção à relação com os bens e ao programa de sustento econômico do movimento franciscano, desenhado nos capítulos 7 a 9 da Regra “não-bulada”.[10] Em síntese: Como “menores”, os frades não assumam chefias e considerem o trabalho como uma “graça”, pois há os que não podem trabalhar – entre os quais os leprosos. O fruto do trabalho é a subsistência para si e para os que não têm a graça de trabalhar. Mas não reclamem salário como um direito. Se não houver paga, ou se não for suficiente, vão pedir esmolas. O capítulo 9, sobre a mendicância, desenvolve o que podemos chamar de “teologia da Mesa do Senhor”, uma prática do Bem Comum: todos são convidados a trabalhar para a Mesa do Senhor, e a esmola também é para a Mesa do Senhor, que, aliás, deu o exemplo em sua vida terrena. Portanto a mendicância é também uma evangelização, o testemunho e a oportunidade de participação na Mesa do Senhor. Rompendo a relação de propriedade natural entre trabalho e fruto do trabalho ou salário, Francisco e o movimento franciscano anunciam uma economia sine proprium, economia radical do dom, longe da meritocracia do liberalismo moderno.

Entre as legendas hagiográficas está a narrativa que ilustra de modo bem humorado o sentido do sine proprium. Em síntese: o inocente e excêntrico Frei Junípero cozinhava para o grupo, e decidiu fazer uma sopa para um confrade doente. Passou a cerca, pegou o porco do vizinho e cortou-lhe uma perna, já que precisava só dela. O vizinho furioso veio acertar com o guardião e este repreendeu Junípero de tal forma que perdeu a voz. Então Junípero, já anoitecendo, trouxe um pouco da sopa para o guardião com o fim de suavizar sua gargante, o que fez o guardião lhe passar novo sermão e se negar a tomar a sopa. Então Junípero pediu-lhe candidamente que segurasse a vela pois ele mesmo tomaria a sopa! Esta narrativa mostra não só o sine proprium em fatos exagerados, mas a perda do sentido de propriedade, e, com isso, também a perda de sentido da hierarquia. O sine proprium se consuma onde há a perda de sentido da propriedade, e não só de si mesmo mas dos outros.

2. A relação sine proprium em aliança gratuita com os animais

Francisco não é somente patrono dos ecologistas, mas, anterior à declaração de 1979, ele é “protetor dos animais”. É absolutamente necessário observar que não se iguala ecologia e animais. Pois os animais não são parte da paisagem. Como nós, eles se movem na paisagem, buscam seu alimento, convivência, etc. Inclusive na Escritura os animais estão ao lado dos humanos, participam da aventura comum da vida, dos infortúnios e da alegria do sábado.

Pode parecer estranho que o santo protetor dos animais tenha prescrito na Regra, em primeira pessoa, uma firme proibição de criar animais e andar a cavalo:

Ordeno a todos os meus irmãos, tanto clérigos como leigos, ao irem pelo mundo, ou morarem em lugar fixo, que de modo algum criem qualquer animal, nem junto a si mesmos, nem com outra pessoa, nem de qualquer outra forma. Nem lhes seja lícito andar a cavalo, a não ser que se vejam obrigados por doença ou por grande necessidade. (Regra não-bulada, 15,1-2)

Quanto à proibição de não andar a cavalo, a interpretação mais recorrente é de que os “cavaleiros” tinham status de nobreza, o que não era mais o caso para quem se tornava um irmão menor, identificado com a população simples dos minores.  Mas também se pode interpretar as duas proibições num sentido único: evitar o domínio e a disponibilidade de animais para si. Trata-se da renúncia à posse e uso indiscriminado de animais. Caso de doença seria exceção. Ambos os interditos e, portanto, as renúncias exigidas, soam como uma indisponibilidade do animal ao arbítrio, ao comprazimento e até mesmo à comodidade humana dos frades.

Tais interditos podem ser mais bem compreendidos através de uma narrativa que os biógrafos repetem: Junto à Porciúncula, lugar de referência dos frades itinerantes, morava uma cigarra que costumava cantar com suavidade. Por certo tempo Francisco a chamava, ela pousava em sua mão e, à ordem de Francisco, ela começava a cantar enquanto o próprio santo juntava seu canto de louvor. Cantavam até que ele a mandasse de volta para seu lugar. Depois de dias nesse jogo de jograis em que − no dizer de Celano − “ela estava sempre pronta para obedecer-lhe”, Francisco se dirigiu aos seus companheiros: “Vamos despedir nossa irmã cigarra, que já nos alegrou bastante aqui com o seu louvor, para que isso não seja causa de vanglória para nós”. Assim, despediu-a, ela foi embora e não mais voltou.[11]

O tom geral das narrativas povoadas de pássaros, de peixes, de cordeiros, de rica variedade de animais, é de um relacionamento inteiramente espontâneo, casual e gratuito, embora contínuo. Ou seja, convivência não programada, acontecimentos em pura graciosidade, em clima de liberdade de quem não tem desejo de posse e por isso assegura liberdade e confiança ao animal. Os hagiógrafos insistem que os animais corriam para Francisco, queriam ficar em sua companhia, só saiam quando admoestados, como por uma “licença” e “obediência”, duas palavras recorrentes dos hagiógrafos nas relações dos animais com Francisco que vamos examinar logo adiante. Até aqui o mais importante é compreender que, para Francisco, a relação com os animais se dava na condição de sine proprium, sem apropriação, o que lhe permitiu uma fraternidade criatural e uma reciprocidade que transcende o sentimento romântico, com consistência ontológica e pureza ética: ele viveu como criatura entre as criaturas, numa aliança e fraternidade criatural.

A narrativa mais detalhada de aliança está em Fioretti XXI,sobre a mediação de Francisco entre o lobo e os habitantes da cidade de Gúbio. Além da beleza literária, da estrutura narrativa transparente, tem uma lição duradoura: seu desinteresse de sine proprium lhe dá autoridade na mediação de aliança e capacidade de exercê-la com justiça e sem humilhação, levando à reconciliação vantajosa para ambas as partes, o humano e o animal. 

3. A profundidade e a largura da obediência sem hierarquia às criaturas

O clima de reciprocidade e aliança, de dons e serviços entre humanos e animais não significa que os animais estão à disposição dos humanos. Sobre isso, há uma oposição frontal entre um dos escritos de Francisco e os escritos de seus biógrafos. A hierarcologia da natureza, de fundo platônico-agostiniano, continuava presente no século XIII através da Escola de São Vítor, e influenciou a forma como Celano e, sobretudo, São Boaventura, descrevem a relação de Francisco com os animais.[12] O raciocínio dos biógrafos é padronizado: Francisco, em sua santidade, é o homem reconciliado do paraíso reconquistado. É Adão redivivo na aurora paradisíaca do mundo, a quem todas as criaturas se submetem em obsequiosa obediência. É por isso que as palavras “obediência” e “licença” são tão recorrentes, com animais felizes e respeitosos, sempre prontos à obediência. Assim, por exemplo, São Boaventura:

São Francisco, tão admirável e verdadeiramente celestial, que abrandou a ferocidade dos animais ferozes, domesticou os animais silvestres, ensinou aos mansos e reduziu à sua primitiva obediência a natureza animal que por causa do pecado se rebelara contra o homem. Esta é a verdadeira piedade que torna amigas as criaturas.[13]

Ou ainda: “A compaixão fazia dele um outro Cristo, a amabilidade o inclinava para o próximo, e uma amizade com cada uma das criaturas lembrava nosso estado de inocência primitiva.[14]

Tanto para Boaventura, como para Celano, “os animais obedecem a Francisco porque Francisco obedece a Deus”.[15]  Para Tomás de Celano,

O glorioso Pai Francisco, caminhando na via da obediência e abraçando perfeitamente o jugo da submissão a Deus, obteve uma grande dignidade diante do Senhor, de tal modo que as criaturas lhe obedeciam (…) só pode ser santa uma pessoa a quem as criaturas obedecem.[16]

De forma mais refinada, Boaventura confirma:

Havia o santo chegado a tal pureza que unia a carne ao espírito e o espírito a Deus em uma maravilhosa harmonia, e se via obedecido, por sua vez, por ordem de Deus, assim que ele expressava um desejo ou uma vontade, pelas criaturas submissas ao Criador.[17]

Mas prestando atenção aos mesmos hagiógrafos em outras narrativas, e diferentemente dessa hierarcologia em que o santo homem ordena e os animais obedecem, eles são, ao invés, profusos em narrar o relacionamento de Francisco com os animais na forma de reciprocidade, relações de mão dupla, com mútuo carinho e ternura, mútua atenção e socorro, descrições de uma real fraternidade e sororidade como entre sujeitos de uma grande família. Os biógrafos empregam os melhores adjetivos para descrever a compaixão, o cuidado, a escuta e a comunicação não só de Francisco para com os animais, mas também dos animais para com Francisco, com reciprocidade e socialidade profusas, longe da afirmação agostiniana de que não há possibilidade de vida social e moral entre humanos e animais. Uma das narrativas mais famosas, que se repete em profusão e exemplifica esta postura de convivência e reciprocidade, é a “pregação aos pássaros”[18].

Para Francisco, os animais não são metáforas ou evocações da psique humana, nem são simplesmente espécies, mas individualidades reais, com autonomia e capacidade de reciprocidade, e respondem com sua própria linguagem às palavras e gestos que lhes dirigimos. A memória edificante que os biógrafos de Francisco nos legaram vai muito além de certa cacofonia da teologia escolástica que seguia a formalidade aristotélica e a hierarcologia platônico-agostiniana.

Mas há mais, o principal deste item: Francisco mesmo, em uma única frase de seu punho, vai bem além da reciprocidade, e aceita a possibilidade de inverter a hierarquia: e se os animais – e animais ferozes – dispusessem de nós como bem entendessem, reconhecendo que nisso estaria a vontade de Deus, acataríamos a obediência devida a eles – os animais − e a Deus? Esse estranho desafio é igual ao que Francisco narra em sua parábola da Verdadeira Alegria. Nessa parábola, ditada em um tempo de dificuldade real com os caminhos da nova Ordem, elaborada em forma de diálogo, ele imagina: E se ele e Frei Leão, frades da primeira hora, ao chegarem em plena noite de neve a seu lugar de origem, à Porciúncula, e fossem rejeitados e expulsos; e se eles se dessem conta de que seria Deus mesmo que os teria colocado nessa situação, como reagiriam? Na sequência do diálogo ele conclui que a verdadeira alegria é a paciência que suporta tal absurdo em paz no meio da desolação, como Cristo na cruz. No caso dos animais, ele nos surpreende no final do seu criativo Elogio das Virtudes, justamente ao falar da obediência:

A santa obediência confunde todos os desejos sensuais e carnais e mantém o corpo mortificado para obedecer ao espírito e obedecer a seu irmão, e torna o homem submisso a todos os homens deste mundo, e nem só aos homens, senão também a todas as bestas e feras para que dele possam dispor o que quiserem, até o ponto que lhe for permitido do alto pelo Senhor.

Nesse último elogio às virtudes, em que radicaliza a obediência, Francisco acrescenta ao elemento conhecido pela ascética de seu tempo – a mortificação do corpo, dos desejos sensuais e mundanos em obediência ao espírito – a obediência para além de uma obediência hierárquica, na obediência alargada “do corpo ao irmão” e “a todos os homens deste mundo”. A originalidade maior, porém, que aqui pode causar estranheza é a obediência “a todos os animais e feras”. Portanto, numa ordem cada vez mais “des-hierarquizada”, ou cada vez mais invertida.

O teste último, afinal, são os animais em sua bestialidade e ferocidade, não em sua beleza e mansidão doméstica. Como no caso da Verdadeira Alegria que reside na paciência, a verdadeira e mais radical obediência não reside em obedecer hierarquicamente quem está acima, mas o que é considerado o mais ínfimo, o animal feroz e perigoso – para que disponham tanto quanto for permitido do alto. Nesse final há uma evocação do Evangelho de João (Cf. Jo 19,11), quando Jesus está diante de Pilatos, submetido a um poder absurdo, mas pelo qual ele interpreta a vontade do Pai: o convite ao amor que abraça a cruz. Os animais, como o irmão e como todos os humanos, podem ser a cruz que devamos carregar como um desígnio do alto, vivido na obediência e na paciência amorosa. Portanto, nada de complacência estética ou afetiva, mas uma radical espiritualidade criatural.

4. O Cantor da fraternidade das criaturas 

Só no final de sua vida, aos 44 anos, depois de renunciar à liderança da nova Ordem, muito doente, quase cego, cheio de dores, na madrugada de uma noite de tormentos, Francisco compõe o Cântico das Criaturas. Na antípoda do possível romantismo de sua juventude, ele canta com sobriedade de adjetivos a fraternidade do sol majestoso, da lua e das estrelas preciosas, da água casta e do fogo alegre, do vento e nuvens e da mãe terra que dão sustento. Une ao louvor das criaturas o perdão e a irmã morte da criatura humana. É bem verdade que “toda paisagem amada é um estado de alma” (G. Bachelard), mas essa verdade indica uma forma da própria alma ser e se comunicar com a paisagem. No entardecer de sua vida, Francisco tem uma alma absolutamente desapropriada, simples e transparente, e emergem de sua alma simples os adjetivos com que associa as criaturas. Seu canto, marco inicial da literatura italiana, é a plenitude de seu caminho de desapropriação e de relações fraternais.[19]

Assim podemos concluir: a) Não um gênio naturalmente romântico, mas uma decepção, uma “desapropriação” e um novo olhar são a condição prévia ao modo de Francisco se situar e se relacionar com a natureza. b) Não a obediência hierárquica sugerida por Celano e Boaventura, mas a renúncia à apropriação é que faz emergir uma verdadeira relação fraterna, recíproca e de aliança com cada criatura, especialmente com cada animal. c) A sua fé, com a perseverança na desapropriação cada vez mais radical, abre à fraternidade universal não abstrata ou por generalidade, mas com cada criatura, até a mais distante – as estrelas − e permite assim que ele se torne a voz e a “boca do universo” − como afirma Agostinho a respeito dos que salmodiam. É assim que emerge, no momento de maior dor, o “Cântico das Criaturas”.


[1] Jacques Le Goff, Saint François d’Assise. Paris : Gallimard, 1999, p. 7.

[2] Cf. Lázaro Iriarte, Vocazione Francescana: Sintesi degli ideali de San Francesco e di Santa Chiara. Casale Monferrato: Piemme, 1987, p. 223; Margaret Wertheim, Uma história do espaço, de Dante à Internet. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. Seguindo as representações do espaço, categoria fundamental para entender “natureza”, a autora sublinha a passagem da representação simbólica para uma representação “fisicalista” cheia de consequências no começo do Renascimento.

[3] Cf. Laure Solignac, « François d’Assise, les animaux et l’obéissance ». In: Christus nº 21, Janvier 2014, p. 32.

[4] Cf. As pesquisas e publicações de Caetano Esser se tornaram exemplo da nova exegese. Cf. especialmente Origens e Espírito Primitivo da Ordem Franciscana. Petrópolis: Vozes, 1972.

[5] Cf. Aldir Crocoli; Luiz Carlos Susin, A Regra de São Francisco de Assis. Apresentação e comentários. Petrópolis: Vozes, 2013.

[6] Cf. Jean-Marie Roger Tillard, Diante de Deus e para os homens: O projeto dos religiosos. São Paulo: Loyola, 1975, pp. 118-119.

[7] Cf. Marc Charron, De Narcisse à Jésus: La quête de l’identité chez François d’Assise. Montréal/Paris: Paulines/ Cerf, 1992.

[8] Tomas Celano, Vita Prima, II, 3.

[9] Testamento, I, 1-3.

[10] Frei Francisco e o Movimento Franciscano. Petrópolis: Vozes, 1986.

[11] Tomas Celano, Vita Secunda, XXX, 171.

[12] Cf. Lázaro Iriarte, opus cit., p. 219.

[13] Legenda Maior, XIII, 11 – ênfase nossa.

[14] Legenda Maior, VIII, 1 – ênfase nossa.

[15] Laure Solignac, opus cit., p. 41.

[16] Vita I, XXI, 61.

[17] Legenda Maior, V, 9.

[18] Tomas Celano, Vita I, XXI, 58. Os parágrafos seguintes são também ilustrativos.

[19] Cf. Eloi Leclerc, O Cântico das criaturas ou os símbolos da união. Petrópolis: Vozes, 1999 (2ª ed.), p. 17 ss.


Abstract

São Francisco de Assis é patrono dos ecologistas e protetor dos animais por razões rigorosamente evangélicas. Despojado de sentimentos românticos, a condição que possibilitou uma relação fraternal com os animais e com todas as criaturas, não foi a obediência hierárquica do paraíso recuperado segundo seus biógrafos, mas a radical desapropriação e disponibilidade à fraternidade sem hierarquias, segundo seus próprios escritos. 

Autor

Luiz Carlos Susin é capuchinho, professor na Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana, em Porto Alegre, Brasil. Foi professor convidado na Universidade Franciscana Antonianum de Roma. Entre suas publicações: A Regra de São Francisco de Assis. Apresentação e comentários (Petrópolis: Vozes, 2013) e A vida dos outros. Ética e teologia da libertação animal. São Paulo: Paulinas, 2015.

Contactos

Rua Juarez Távora, 171 Porto Alegre-RS 91520-100 Brasil.



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Luiz Carlos Susin

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Linda Hogan, João Vila-Chã, Agbonkhianmeghe Orobator

Francisco de Assis, segundo o medievalista Jacques Le Goff, desempenhou um papel original na passagem do século XII para o século XIII, “enriquecendo a espiritualidade com uma dimensão ecológica, a ponto de aparecer como o inventor de um sentimento medieval da natureza que se expressou na religião, na literatura e na arte”.[1] O cristianismo do primeiro milênio guardou prudente distância da natureza cósmica e ecológica com suas energias frequentemente obscuras, pois em relação à natureza sempre se reacendia uma perigosa divinização pagã. No entanto, nos séculos XII e XIII esse sentimento de risco de paganismo ia-se acalmando, o que possibilitava uma relação mais amigável com a natureza. Não durou muito, porém: já nos séculos seguintes, a natureza, desprovida de sacralidade, permitiu começar uma relação “coisificante”, de experimentação e exploração, que Francis Bacon, em 1627, expressou como violação, comparando a natureza a uma “mulher pública” que se deve torturar para penetrar e arrancar seus segredos. A conclusão não é agradável: em dois mil anos de cristianismo, somente naquele breve tempo, quase num intervalo entre o excesso de mistificação e o excesso de objetivação, teria sido possível uma relação amistosa com a natureza.[2]

No atropelo da modernidade a mensagem de Francisco de Assis ficou eclipsada. Voltaire depreciou o santo mendigo que exaltaria uma vida improdutiva. No século XIX, porém, cooptado pelo romantismo, Francisco ganhou a figura de “santo dos passarinhos”.[3] Há um grande risco de redução romântica, pois de fato a hagiografia e a iconografia de Francisco podem nos dar uma impressão de intenso romantismo. Seu relacionamento com os elementos da natureza, especialmente com cada animal, é descrito de forma tão fraternal e coloquial, tão terna e compassiva, às vezes tão íntima, que temos a tentação de perguntar o que é real em toda essa poesia sobrecarregada de afetos e exclamações. Num clima de redução romântica, a própria declaração de São Francisco de Assis como patrono dos ecologistas por parte de João Paulo II em 1979, poderia reforçar mal-entendidos.

Precisamos começar com uma distinção já consagrada dos textos que nos servem de fontes para procedermos com uma hermenêutica adequada. É lugar comum entre os especialistas, quando se trata de “fontes franciscanas”, a distinção entre os escritos do próprio Francisco e as biografias que foram sucessivamente elaboradas ao longo de mais de um século. Aplicaram-se às fontes franciscanas as mesmas regras do método histórico-crítico dos estudos bíblicos, e chegou-se inclusive à distinção entre o “Francisco histórico” e o “Francisco da fé”.[4]

Francisco não é um escritor, mas temos textos de seu punho ou ditados por ele, embora sejam poucos e breves: exortações, bilhetes, cartas, compilações litúrgicas, o testamento que é um memorial, e, sobretudo, duas versões da Regra. Estas tem um processo coletivo de elaboração e experimentação, mas onde o verbo se encontra no singular considera-se voz do próprio Francisco. Somente a segunda, mais sóbria, tem o selo pontifício. No entanto a primeira está mais próxima do processo e experimentação da forma de vida franciscana. Tem, portanto, autoridade hermenêutica.[5]

Já os escritos hagiográficos têm uma história dramática. Os autores ora se inclinam a um estilo “edificante”, devoto e poético, com certo sabor heroico, para exaltar o santo e entusiasmar o leitor, ora tem caráter polêmico, com a intenção de legitimar formas mais radicais ou mais moderadas de seguimento e continuidade por parte das gerações de frades que sucederam a Francisco. Desses autores privilegiamos aqui dois: Tomás de Celano, por ter sido contemporâneo de Francisco e seu primeiro biógrafo. E São Boaventura, quase quarenta anos depois, encarregado de terminar a polêmica na disseminação de biografias conflitantes. Ele escreveu com toda sua fineza teológica uma biografia que deveria ser única e definitiva. Escreveu duas, e cópias das biografias anteriores acabaram sendo preservadas da destruição, de tal forma que hoje temos uma variedade de autoridades documentais − com seus contextos − reunidas nas fontes franciscanas.

O que nos dizem as fontes sobre nosso tema – a relação com a “natureza” − quando utilizamos os escritos de Francisco e quando utilizamos hagiógrafos do século XIII?

1. Decepção e novo olhar: sine proprium

Os votos de consagração religiosa tiveram variantes até ao século XIII. E dos três que conhecemos hoje – castidade, obediência, pobreza – o mais variável em seu enunciado foi o de pobreza voluntária.[6] Nem mesmo hoje em dia a consagração à forma franciscana de vida inclui um voto de “pobreza” − e justamente para os herdeiros do Poverello de Assis. Desde a primeira regra franciscana, permanecendo na regra aprovada, se diz ao invés textualmente: sine proprium. Inclui pobreza voluntária, mas suas conotações exigem algo mais profundo: o despojamento interior, de mente e de afeto, a renúncia ao “sentido de propriedade” que inclui a deposição da soberania da subjetividade e da identidade. Se aos monges do primeiro milênio era suficiente o propósito de abraçar a obediência, no caso franciscano seria suficiente o sine proprium. Não é, porém, algo tão simples, pois é um gesto voluntário mas não voluntarista. Sua profundidade de desenraizamento pode ser comparável à kénosis do hino paulino em Filipenses 2, precedido justamente por uma exortação a imitar os sentimentos de Cristo. Historicamente, não apenas em Francisco, mas em Bento, em Inácio de Loyola, em Chiara Lubich, etc. este processo começa negativamente: uma doença, uma decepção, um choque, uma guerra.

Francisco começa com uma grave, prolongada e agônica decepção. Ela o atinge de todos os lados: o velho ideal de nobreza e cavalaria o leva à catástrofe da prisão e à doença. O ideal da burguesia em ascensão, representada pelos negócios de seu pai, não cabem em seu coração generoso. O ideal religioso da vida monacal que ele buscou conhecer de perto lhe soa pesado. As festas bancadas com o dinheiro de seu pai, que ele oferecia aos companheiros de juventude e que prolongaram sua adolescência, se tornaram insípidas. Francisco jaz inteiramente decepcionado, profundamente ferido em seu narcisismo e em sua mania de grandeza.[7] É nesse contexto de vazio existencial que Celano anota um passeio de Francisco convalescente:

Nem a beleza dos campos, nem o encanto das vinhas, nem coisa nenhuma que é agradável de se ver conseguia satisfazê-lo. Admirava-se por isso de sua mudança repentina e começou a julgar loucos os que amam essas coisas.[8]

Em conclusão, até o encanto natural e o justo sentimento romântico, com a devastação de seus ideais e de suas relações, se ausentam. Assim começa, muito além de um voluntarismo, o sine proprium

Mas a este lado negativo se junta nova experiência, que permite a Francisco lembrar em seu Testamento como uma graça de conversão, o início de uma vida em penitência:

Foi assim que o Senhor me concedeu a mim, Frei Francisco, iniciar uma vida de penitência: como estivesse em pecados, parecia-me por demais amargo olhar para leprosos. E o Senhor mesmo me conduziu entre eles e eu tive misericórdia com eles. E enquanto me retirava deles, justamente o que antes me parecia amargo se me converteu em doçura da alma e do corpo. E depois disso demorei só bem pouco e abandonei o século.[9]

A transformação do doce em amargo e do amargo em doce é uma excelente metáfora de conversão: expulso pelo acúmulo de crises de seu espaço e relacionamentos anteriores, Francisco vaga pelo lado de fora e começa a encontrar novos relacionamentos e novos significados. Nada mais volta a ser como antes: a Vita Nova se dá no sine proprium.

Isso tem repercussão na Regra. David Flood deu especial atenção à relação com os bens e ao programa de sustento econômico do movimento franciscano, desenhado nos capítulos 7 a 9 da Regra “não-bulada”.[10] Em síntese: Como “menores”, os frades não assumam chefias e considerem o trabalho como uma “graça”, pois há os que não podem trabalhar – entre os quais os leprosos. O fruto do trabalho é a subsistência para si e para os que não têm a graça de trabalhar. Mas não reclamem salário como um direito. Se não houver paga, ou se não for suficiente, vão pedir esmolas. O capítulo 9, sobre a mendicância, desenvolve o que podemos chamar de “teologia da Mesa do Senhor”, uma prática do Bem Comum: todos são convidados a trabalhar para a Mesa do Senhor, e a esmola também é para a Mesa do Senhor, que, aliás, deu o exemplo em sua vida terrena. Portanto a mendicância é também uma evangelização, o testemunho e a oportunidade de participação na Mesa do Senhor. Rompendo a relação de propriedade natural entre trabalho e fruto do trabalho ou salário, Francisco e o movimento franciscano anunciam uma economia sine proprium, economia radical do dom, longe da meritocracia do liberalismo moderno.

Entre as legendas hagiográficas está a narrativa que ilustra de modo bem humorado o sentido do sine proprium. Em síntese: o inocente e excêntrico Frei Junípero cozinhava para o grupo, e decidiu fazer uma sopa para um confrade doente. Passou a cerca, pegou o porco do vizinho e cortou-lhe uma perna, já que precisava só dela. O vizinho furioso veio acertar com o guardião e este repreendeu Junípero de tal forma que perdeu a voz. Então Junípero, já anoitecendo, trouxe um pouco da sopa para o guardião com o fim de suavizar sua gargante, o que fez o guardião lhe passar novo sermão e se negar a tomar a sopa. Então Junípero pediu-lhe candidamente que segurasse a vela pois ele mesmo tomaria a sopa! Esta narrativa mostra não só o sine proprium em fatos exagerados, mas a perda do sentido de propriedade, e, com isso, também a perda de sentido da hierarquia. O sine proprium se consuma onde há a perda de sentido da propriedade, e não só de si mesmo mas dos outros.

2. A relação sine proprium em aliança gratuita com os animais

Francisco não é somente patrono dos ecologistas, mas, anterior à declaração de 1979, ele é “protetor dos animais”. É absolutamente necessário observar que não se iguala ecologia e animais. Pois os animais não são parte da paisagem. Como nós, eles se movem na paisagem, buscam seu alimento, convivência, etc. Inclusive na Escritura os animais estão ao lado dos humanos, participam da aventura comum da vida, dos infortúnios e da alegria do sábado.

Pode parecer estranho que o santo protetor dos animais tenha prescrito na Regra, em primeira pessoa, uma firme proibição de criar animais e andar a cavalo:

Ordeno a todos os meus irmãos, tanto clérigos como leigos, ao irem pelo mundo, ou morarem em lugar fixo, que de modo algum criem qualquer animal, nem junto a si mesmos, nem com outra pessoa, nem de qualquer outra forma. Nem lhes seja lícito andar a cavalo, a não ser que se vejam obrigados por doença ou por grande necessidade. (Regra não-bulada, 15,1-2)

Quanto à proibição de não andar a cavalo, a interpretação mais recorrente é de que os “cavaleiros” tinham status de nobreza, o que não era mais o caso para quem se tornava um irmão menor, identificado com a população simples dos minores.  Mas também se pode interpretar as duas proibições num sentido único: evitar o domínio e a disponibilidade de animais para si. Trata-se da renúncia à posse e uso indiscriminado de animais. Caso de doença seria exceção. Ambos os interditos e, portanto, as renúncias exigidas, soam como uma indisponibilidade do animal ao arbítrio, ao comprazimento e até mesmo à comodidade humana dos frades.

Tais interditos podem ser mais bem compreendidos através de uma narrativa que os biógrafos repetem: Junto à Porciúncula, lugar de referência dos frades itinerantes, morava uma cigarra que costumava cantar com suavidade. Por certo tempo Francisco a chamava, ela pousava em sua mão e, à ordem de Francisco, ela começava a cantar enquanto o próprio santo juntava seu canto de louvor. Cantavam até que ele a mandasse de volta para seu lugar. Depois de dias nesse jogo de jograis em que − no dizer de Celano − “ela estava sempre pronta para obedecer-lhe”, Francisco se dirigiu aos seus companheiros: “Vamos despedir nossa irmã cigarra, que já nos alegrou bastante aqui com o seu louvor, para que isso não seja causa de vanglória para nós”. Assim, despediu-a, ela foi embora e não mais voltou.[11]

O tom geral das narrativas povoadas de pássaros, de peixes, de cordeiros, de rica variedade de animais, é de um relacionamento inteiramente espontâneo, casual e gratuito, embora contínuo. Ou seja, convivência não programada, acontecimentos em pura graciosidade, em clima de liberdade de quem não tem desejo de posse e por isso assegura liberdade e confiança ao animal. Os hagiógrafos insistem que os animais corriam para Francisco, queriam ficar em sua companhia, só saiam quando admoestados, como por uma “licença” e “obediência”, duas palavras recorrentes dos hagiógrafos nas relações dos animais com Francisco que vamos examinar logo adiante. Até aqui o mais importante é compreender que, para Francisco, a relação com os animais se dava na condição de sine proprium, sem apropriação, o que lhe permitiu uma fraternidade criatural e uma reciprocidade que transcende o sentimento romântico, com consistência ontológica e pureza ética: ele viveu como criatura entre as criaturas, numa aliança e fraternidade criatural.

A narrativa mais detalhada de aliança está em Fioretti XXI,sobre a mediação de Francisco entre o lobo e os habitantes da cidade de Gúbio. Além da beleza literária, da estrutura narrativa transparente, tem uma lição duradoura: seu desinteresse de sine proprium lhe dá autoridade na mediação de aliança e capacidade de exercê-la com justiça e sem humilhação, levando à reconciliação vantajosa para ambas as partes, o humano e o animal. 

3. A profundidade e a largura da obediência sem hierarquia às criaturas

O clima de reciprocidade e aliança, de dons e serviços entre humanos e animais não significa que os animais estão à disposição dos humanos. Sobre isso, há uma oposição frontal entre um dos escritos de Francisco e os escritos de seus biógrafos. A hierarcologia da natureza, de fundo platônico-agostiniano, continuava presente no século XIII através da Escola de São Vítor, e influenciou a forma como Celano e, sobretudo, São Boaventura, descrevem a relação de Francisco com os animais.[12] O raciocínio dos biógrafos é padronizado: Francisco, em sua santidade, é o homem reconciliado do paraíso reconquistado. É Adão redivivo na aurora paradisíaca do mundo, a quem todas as criaturas se submetem em obsequiosa obediência. É por isso que as palavras “obediência” e “licença” são tão recorrentes, com animais felizes e respeitosos, sempre prontos à obediência. Assim, por exemplo, São Boaventura:

São Francisco, tão admirável e verdadeiramente celestial, que abrandou a ferocidade dos animais ferozes, domesticou os animais silvestres, ensinou aos mansos e reduziu à sua primitiva obediência a natureza animal que por causa do pecado se rebelara contra o homem. Esta é a verdadeira piedade que torna amigas as criaturas.[13]

Ou ainda: “A compaixão fazia dele um outro Cristo, a amabilidade o inclinava para o próximo, e uma amizade com cada uma das criaturas lembrava nosso estado de inocência primitiva.[14]

Tanto para Boaventura, como para Celano, “os animais obedecem a Francisco porque Francisco obedece a Deus”.[15]  Para Tomás de Celano,

O glorioso Pai Francisco, caminhando na via da obediência e abraçando perfeitamente o jugo da submissão a Deus, obteve uma grande dignidade diante do Senhor, de tal modo que as criaturas lhe obedeciam (…) só pode ser santa uma pessoa a quem as criaturas obedecem.[16]

De forma mais refinada, Boaventura confirma:

Havia o santo chegado a tal pureza que unia a carne ao espírito e o espírito a Deus em uma maravilhosa harmonia, e se via obedecido, por sua vez, por ordem de Deus, assim que ele expressava um desejo ou uma vontade, pelas criaturas submissas ao Criador.[17]

Mas prestando atenção aos mesmos hagiógrafos em outras narrativas, e diferentemente dessa hierarcologia em que o santo homem ordena e os animais obedecem, eles são, ao invés, profusos em narrar o relacionamento de Francisco com os animais na forma de reciprocidade, relações de mão dupla, com mútuo carinho e ternura, mútua atenção e socorro, descrições de uma real fraternidade e sororidade como entre sujeitos de uma grande família. Os biógrafos empregam os melhores adjetivos para descrever a compaixão, o cuidado, a escuta e a comunicação não só de Francisco para com os animais, mas também dos animais para com Francisco, com reciprocidade e socialidade profusas, longe da afirmação agostiniana de que não há possibilidade de vida social e moral entre humanos e animais. Uma das narrativas mais famosas, que se repete em profusão e exemplifica esta postura de convivência e reciprocidade, é a “pregação aos pássaros”[18].

Para Francisco, os animais não são metáforas ou evocações da psique humana, nem são simplesmente espécies, mas individualidades reais, com autonomia e capacidade de reciprocidade, e respondem com sua própria linguagem às palavras e gestos que lhes dirigimos. A memória edificante que os biógrafos de Francisco nos legaram vai muito além de certa cacofonia da teologia escolástica que seguia a formalidade aristotélica e a hierarcologia platônico-agostiniana.

Mas há mais, o principal deste item: Francisco mesmo, em uma única frase de seu punho, vai bem além da reciprocidade, e aceita a possibilidade de inverter a hierarquia: e se os animais – e animais ferozes – dispusessem de nós como bem entendessem, reconhecendo que nisso estaria a vontade de Deus, acataríamos a obediência devida a eles – os animais − e a Deus? Esse estranho desafio é igual ao que Francisco narra em sua parábola da Verdadeira Alegria. Nessa parábola, ditada em um tempo de dificuldade real com os caminhos da nova Ordem, elaborada em forma de diálogo, ele imagina: E se ele e Frei Leão, frades da primeira hora, ao chegarem em plena noite de neve a seu lugar de origem, à Porciúncula, e fossem rejeitados e expulsos; e se eles se dessem conta de que seria Deus mesmo que os teria colocado nessa situação, como reagiriam? Na sequência do diálogo ele conclui que a verdadeira alegria é a paciência que suporta tal absurdo em paz no meio da desolação, como Cristo na cruz. No caso dos animais, ele nos surpreende no final do seu criativo Elogio das Virtudes, justamente ao falar da obediência:

A santa obediência confunde todos os desejos sensuais e carnais e mantém o corpo mortificado para obedecer ao espírito e obedecer a seu irmão, e torna o homem submisso a todos os homens deste mundo, e nem só aos homens, senão também a todas as bestas e feras para que dele possam dispor o que quiserem, até o ponto que lhe for permitido do alto pelo Senhor.

Nesse último elogio às virtudes, em que radicaliza a obediência, Francisco acrescenta ao elemento conhecido pela ascética de seu tempo – a mortificação do corpo, dos desejos sensuais e mundanos em obediência ao espírito – a obediência para além de uma obediência hierárquica, na obediência alargada “do corpo ao irmão” e “a todos os homens deste mundo”. A originalidade maior, porém, que aqui pode causar estranheza é a obediência “a todos os animais e feras”. Portanto, numa ordem cada vez mais “des-hierarquizada”, ou cada vez mais invertida.

O teste último, afinal, são os animais em sua bestialidade e ferocidade, não em sua beleza e mansidão doméstica. Como no caso da Verdadeira Alegria que reside na paciência, a verdadeira e mais radical obediência não reside em obedecer hierarquicamente quem está acima, mas o que é considerado o mais ínfimo, o animal feroz e perigoso – para que disponham tanto quanto for permitido do alto. Nesse final há uma evocação do Evangelho de João (Cf. Jo 19,11), quando Jesus está diante de Pilatos, submetido a um poder absurdo, mas pelo qual ele interpreta a vontade do Pai: o convite ao amor que abraça a cruz. Os animais, como o irmão e como todos os humanos, podem ser a cruz que devamos carregar como um desígnio do alto, vivido na obediência e na paciência amorosa. Portanto, nada de complacência estética ou afetiva, mas uma radical espiritualidade criatural.

4. O Cantor da fraternidade das criaturas 

Só no final de sua vida, aos 44 anos, depois de renunciar à liderança da nova Ordem, muito doente, quase cego, cheio de dores, na madrugada de uma noite de tormentos, Francisco compõe o Cântico das Criaturas. Na antípoda do possível romantismo de sua juventude, ele canta com sobriedade de adjetivos a fraternidade do sol majestoso, da lua e das estrelas preciosas, da água casta e do fogo alegre, do vento e nuvens e da mãe terra que dão sustento. Une ao louvor das criaturas o perdão e a irmã morte da criatura humana. É bem verdade que “toda paisagem amada é um estado de alma” (G. Bachelard), mas essa verdade indica uma forma da própria alma ser e se comunicar com a paisagem. No entardecer de sua vida, Francisco tem uma alma absolutamente desapropriada, simples e transparente, e emergem de sua alma simples os adjetivos com que associa as criaturas. Seu canto, marco inicial da literatura italiana, é a plenitude de seu caminho de desapropriação e de relações fraternais.[19]

Assim podemos concluir: a) Não um gênio naturalmente romântico, mas uma decepção, uma “desapropriação” e um novo olhar são a condição prévia ao modo de Francisco se situar e se relacionar com a natureza. b) Não a obediência hierárquica sugerida por Celano e Boaventura, mas a renúncia à apropriação é que faz emergir uma verdadeira relação fraterna, recíproca e de aliança com cada criatura, especialmente com cada animal. c) A sua fé, com a perseverança na desapropriação cada vez mais radical, abre à fraternidade universal não abstrata ou por generalidade, mas com cada criatura, até a mais distante – as estrelas − e permite assim que ele se torne a voz e a “boca do universo” − como afirma Agostinho a respeito dos que salmodiam. É assim que emerge, no momento de maior dor, o “Cântico das Criaturas”.


[1] Jacques Le Goff, Saint François d’Assise. Paris : Gallimard, 1999, p. 7.

[2] Cf. Lázaro Iriarte, Vocazione Francescana: Sintesi degli ideali de San Francesco e di Santa Chiara. Casale Monferrato: Piemme, 1987, p. 223; Margaret Wertheim, Uma história do espaço, de Dante à Internet. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. Seguindo as representações do espaço, categoria fundamental para entender “natureza”, a autora sublinha a passagem da representação simbólica para uma representação “fisicalista” cheia de consequências no começo do Renascimento.

[3] Cf. Laure Solignac, « François d’Assise, les animaux et l’obéissance ». In: Christus nº 21, Janvier 2014, p. 32.

[4] Cf. As pesquisas e publicações de Caetano Esser se tornaram exemplo da nova exegese. Cf. especialmente Origens e Espírito Primitivo da Ordem Franciscana. Petrópolis: Vozes, 1972.

[5] Cf. Aldir Crocoli; Luiz Carlos Susin, A Regra de São Francisco de Assis. Apresentação e comentários. Petrópolis: Vozes, 2013.

[6] Cf. Jean-Marie Roger Tillard, Diante de Deus e para os homens: O projeto dos religiosos. São Paulo: Loyola, 1975, pp. 118-119.

[7] Cf. Marc Charron, De Narcisse à Jésus: La quête de l’identité chez François d’Assise. Montréal/Paris: Paulines/ Cerf, 1992.

[8] Tomas Celano, Vita Prima, II, 3.

[9] Testamento, I, 1-3.

[10] Frei Francisco e o Movimento Franciscano. Petrópolis: Vozes, 1986.

[11] Tomas Celano, Vita Secunda, XXX, 171.

[12] Cf. Lázaro Iriarte, opus cit., p. 219.

[13] Legenda Maior, XIII, 11 – ênfase nossa.

[14] Legenda Maior, VIII, 1 – ênfase nossa.

[15] Laure Solignac, opus cit., p. 41.

[16] Vita I, XXI, 61.

[17] Legenda Maior, V, 9.

[18] Tomas Celano, Vita I, XXI, 58. Os parágrafos seguintes são também ilustrativos.

[19] Cf. Eloi Leclerc, O Cântico das criaturas ou os símbolos da união. Petrópolis: Vozes, 1999 (2ª ed.), p. 17 ss.


Abstract

São Francisco de Assis é patrono dos ecologistas e protetor dos animais por razões rigorosamente evangélicas. Despojado de sentimentos românticos, a condição que possibilitou uma relação fraternal com os animais e com todas as criaturas, não foi a obediência hierárquica do paraíso recuperado segundo seus biógrafos, mas a radical desapropriação e disponibilidade à fraternidade sem hierarquias, segundo seus próprios escritos. 

Autore

Luiz Carlos Susin é capuchinho, professor na Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana, em Porto Alegre, Brasil. Foi professor convidado na Universidade Franciscana Antonianum de Roma. Entre suas publicações: A Regra de São Francisco de Assis. Apresentação e comentários (Petrópolis: Vozes, 2013) e A vida dos outros. Ética e teologia da libertação animal. São Paulo: Paulinas, 2015.

Contatti

Rua Juarez Távora, 171 Porto Alegre-RS 91520-100 Brasil.



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Luiz Carlos Susin

« Sine proprium e irmão das criaturas »



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Linda Hogan, João Vila-Chã, Agbonkhianmeghe Orobator

Francisco de Assis, segundo o medievalista Jacques Le Goff, desempenhou um papel original na passagem do século XII para o século XIII, “enriquecendo a espiritualidade com uma dimensão ecológica, a ponto de aparecer como o inventor de um sentimento medieval da natureza que se expressou na religião, na literatura e na arte”.[1] O cristianismo do primeiro milênio guardou prudente distância da natureza cósmica e ecológica com suas energias frequentemente obscuras, pois em relação à natureza sempre se reacendia uma perigosa divinização pagã. No entanto, nos séculos XII e XIII esse sentimento de risco de paganismo ia-se acalmando, o que possibilitava uma relação mais amigável com a natureza. Não durou muito, porém: já nos séculos seguintes, a natureza, desprovida de sacralidade, permitiu começar uma relação “coisificante”, de experimentação e exploração, que Francis Bacon, em 1627, expressou como violação, comparando a natureza a uma “mulher pública” que se deve torturar para penetrar e arrancar seus segredos. A conclusão não é agradável: em dois mil anos de cristianismo, somente naquele breve tempo, quase num intervalo entre o excesso de mistificação e o excesso de objetivação, teria sido possível uma relação amistosa com a natureza.[2]

No atropelo da modernidade a mensagem de Francisco de Assis ficou eclipsada. Voltaire depreciou o santo mendigo que exaltaria uma vida improdutiva. No século XIX, porém, cooptado pelo romantismo, Francisco ganhou a figura de “santo dos passarinhos”.[3] Há um grande risco de redução romântica, pois de fato a hagiografia e a iconografia de Francisco podem nos dar uma impressão de intenso romantismo. Seu relacionamento com os elementos da natureza, especialmente com cada animal, é descrito de forma tão fraternal e coloquial, tão terna e compassiva, às vezes tão íntima, que temos a tentação de perguntar o que é real em toda essa poesia sobrecarregada de afetos e exclamações. Num clima de redução romântica, a própria declaração de São Francisco de Assis como patrono dos ecologistas por parte de João Paulo II em 1979, poderia reforçar mal-entendidos.

Precisamos começar com uma distinção já consagrada dos textos que nos servem de fontes para procedermos com uma hermenêutica adequada. É lugar comum entre os especialistas, quando se trata de “fontes franciscanas”, a distinção entre os escritos do próprio Francisco e as biografias que foram sucessivamente elaboradas ao longo de mais de um século. Aplicaram-se às fontes franciscanas as mesmas regras do método histórico-crítico dos estudos bíblicos, e chegou-se inclusive à distinção entre o “Francisco histórico” e o “Francisco da fé”.[4]

Francisco não é um escritor, mas temos textos de seu punho ou ditados por ele, embora sejam poucos e breves: exortações, bilhetes, cartas, compilações litúrgicas, o testamento que é um memorial, e, sobretudo, duas versões da Regra. Estas tem um processo coletivo de elaboração e experimentação, mas onde o verbo se encontra no singular considera-se voz do próprio Francisco. Somente a segunda, mais sóbria, tem o selo pontifício. No entanto a primeira está mais próxima do processo e experimentação da forma de vida franciscana. Tem, portanto, autoridade hermenêutica.[5]

Já os escritos hagiográficos têm uma história dramática. Os autores ora se inclinam a um estilo “edificante”, devoto e poético, com certo sabor heroico, para exaltar o santo e entusiasmar o leitor, ora tem caráter polêmico, com a intenção de legitimar formas mais radicais ou mais moderadas de seguimento e continuidade por parte das gerações de frades que sucederam a Francisco. Desses autores privilegiamos aqui dois: Tomás de Celano, por ter sido contemporâneo de Francisco e seu primeiro biógrafo. E São Boaventura, quase quarenta anos depois, encarregado de terminar a polêmica na disseminação de biografias conflitantes. Ele escreveu com toda sua fineza teológica uma biografia que deveria ser única e definitiva. Escreveu duas, e cópias das biografias anteriores acabaram sendo preservadas da destruição, de tal forma que hoje temos uma variedade de autoridades documentais − com seus contextos − reunidas nas fontes franciscanas.

O que nos dizem as fontes sobre nosso tema – a relação com a “natureza” − quando utilizamos os escritos de Francisco e quando utilizamos hagiógrafos do século XIII?

1. Decepção e novo olhar: sine proprium

Os votos de consagração religiosa tiveram variantes até ao século XIII. E dos três que conhecemos hoje – castidade, obediência, pobreza – o mais variável em seu enunciado foi o de pobreza voluntária.[6] Nem mesmo hoje em dia a consagração à forma franciscana de vida inclui um voto de “pobreza” − e justamente para os herdeiros do Poverello de Assis. Desde a primeira regra franciscana, permanecendo na regra aprovada, se diz ao invés textualmente: sine proprium. Inclui pobreza voluntária, mas suas conotações exigem algo mais profundo: o despojamento interior, de mente e de afeto, a renúncia ao “sentido de propriedade” que inclui a deposição da soberania da subjetividade e da identidade. Se aos monges do primeiro milênio era suficiente o propósito de abraçar a obediência, no caso franciscano seria suficiente o sine proprium. Não é, porém, algo tão simples, pois é um gesto voluntário mas não voluntarista. Sua profundidade de desenraizamento pode ser comparável à kénosis do hino paulino em Filipenses 2, precedido justamente por uma exortação a imitar os sentimentos de Cristo. Historicamente, não apenas em Francisco, mas em Bento, em Inácio de Loyola, em Chiara Lubich, etc. este processo começa negativamente: uma doença, uma decepção, um choque, uma guerra.

Francisco começa com uma grave, prolongada e agônica decepção. Ela o atinge de todos os lados: o velho ideal de nobreza e cavalaria o leva à catástrofe da prisão e à doença. O ideal da burguesia em ascensão, representada pelos negócios de seu pai, não cabem em seu coração generoso. O ideal religioso da vida monacal que ele buscou conhecer de perto lhe soa pesado. As festas bancadas com o dinheiro de seu pai, que ele oferecia aos companheiros de juventude e que prolongaram sua adolescência, se tornaram insípidas. Francisco jaz inteiramente decepcionado, profundamente ferido em seu narcisismo e em sua mania de grandeza.[7] É nesse contexto de vazio existencial que Celano anota um passeio de Francisco convalescente:

Nem a beleza dos campos, nem o encanto das vinhas, nem coisa nenhuma que é agradável de se ver conseguia satisfazê-lo. Admirava-se por isso de sua mudança repentina e começou a julgar loucos os que amam essas coisas.[8]

Em conclusão, até o encanto natural e o justo sentimento romântico, com a devastação de seus ideais e de suas relações, se ausentam. Assim começa, muito além de um voluntarismo, o sine proprium

Mas a este lado negativo se junta nova experiência, que permite a Francisco lembrar em seu Testamento como uma graça de conversão, o início de uma vida em penitência:

Foi assim que o Senhor me concedeu a mim, Frei Francisco, iniciar uma vida de penitência: como estivesse em pecados, parecia-me por demais amargo olhar para leprosos. E o Senhor mesmo me conduziu entre eles e eu tive misericórdia com eles. E enquanto me retirava deles, justamente o que antes me parecia amargo se me converteu em doçura da alma e do corpo. E depois disso demorei só bem pouco e abandonei o século.[9]

A transformação do doce em amargo e do amargo em doce é uma excelente metáfora de conversão: expulso pelo acúmulo de crises de seu espaço e relacionamentos anteriores, Francisco vaga pelo lado de fora e começa a encontrar novos relacionamentos e novos significados. Nada mais volta a ser como antes: a Vita Nova se dá no sine proprium.

Isso tem repercussão na Regra. David Flood deu especial atenção à relação com os bens e ao programa de sustento econômico do movimento franciscano, desenhado nos capítulos 7 a 9 da Regra “não-bulada”.[10] Em síntese: Como “menores”, os frades não assumam chefias e considerem o trabalho como uma “graça”, pois há os que não podem trabalhar – entre os quais os leprosos. O fruto do trabalho é a subsistência para si e para os que não têm a graça de trabalhar. Mas não reclamem salário como um direito. Se não houver paga, ou se não for suficiente, vão pedir esmolas. O capítulo 9, sobre a mendicância, desenvolve o que podemos chamar de “teologia da Mesa do Senhor”, uma prática do Bem Comum: todos são convidados a trabalhar para a Mesa do Senhor, e a esmola também é para a Mesa do Senhor, que, aliás, deu o exemplo em sua vida terrena. Portanto a mendicância é também uma evangelização, o testemunho e a oportunidade de participação na Mesa do Senhor. Rompendo a relação de propriedade natural entre trabalho e fruto do trabalho ou salário, Francisco e o movimento franciscano anunciam uma economia sine proprium, economia radical do dom, longe da meritocracia do liberalismo moderno.

Entre as legendas hagiográficas está a narrativa que ilustra de modo bem humorado o sentido do sine proprium. Em síntese: o inocente e excêntrico Frei Junípero cozinhava para o grupo, e decidiu fazer uma sopa para um confrade doente. Passou a cerca, pegou o porco do vizinho e cortou-lhe uma perna, já que precisava só dela. O vizinho furioso veio acertar com o guardião e este repreendeu Junípero de tal forma que perdeu a voz. Então Junípero, já anoitecendo, trouxe um pouco da sopa para o guardião com o fim de suavizar sua gargante, o que fez o guardião lhe passar novo sermão e se negar a tomar a sopa. Então Junípero pediu-lhe candidamente que segurasse a vela pois ele mesmo tomaria a sopa! Esta narrativa mostra não só o sine proprium em fatos exagerados, mas a perda do sentido de propriedade, e, com isso, também a perda de sentido da hierarquia. O sine proprium se consuma onde há a perda de sentido da propriedade, e não só de si mesmo mas dos outros.

2. A relação sine proprium em aliança gratuita com os animais

Francisco não é somente patrono dos ecologistas, mas, anterior à declaração de 1979, ele é “protetor dos animais”. É absolutamente necessário observar que não se iguala ecologia e animais. Pois os animais não são parte da paisagem. Como nós, eles se movem na paisagem, buscam seu alimento, convivência, etc. Inclusive na Escritura os animais estão ao lado dos humanos, participam da aventura comum da vida, dos infortúnios e da alegria do sábado.

Pode parecer estranho que o santo protetor dos animais tenha prescrito na Regra, em primeira pessoa, uma firme proibição de criar animais e andar a cavalo:

Ordeno a todos os meus irmãos, tanto clérigos como leigos, ao irem pelo mundo, ou morarem em lugar fixo, que de modo algum criem qualquer animal, nem junto a si mesmos, nem com outra pessoa, nem de qualquer outra forma. Nem lhes seja lícito andar a cavalo, a não ser que se vejam obrigados por doença ou por grande necessidade. (Regra não-bulada, 15,1-2)

Quanto à proibição de não andar a cavalo, a interpretação mais recorrente é de que os “cavaleiros” tinham status de nobreza, o que não era mais o caso para quem se tornava um irmão menor, identificado com a população simples dos minores.  Mas também se pode interpretar as duas proibições num sentido único: evitar o domínio e a disponibilidade de animais para si. Trata-se da renúncia à posse e uso indiscriminado de animais. Caso de doença seria exceção. Ambos os interditos e, portanto, as renúncias exigidas, soam como uma indisponibilidade do animal ao arbítrio, ao comprazimento e até mesmo à comodidade humana dos frades.

Tais interditos podem ser mais bem compreendidos através de uma narrativa que os biógrafos repetem: Junto à Porciúncula, lugar de referência dos frades itinerantes, morava uma cigarra que costumava cantar com suavidade. Por certo tempo Francisco a chamava, ela pousava em sua mão e, à ordem de Francisco, ela começava a cantar enquanto o próprio santo juntava seu canto de louvor. Cantavam até que ele a mandasse de volta para seu lugar. Depois de dias nesse jogo de jograis em que − no dizer de Celano − “ela estava sempre pronta para obedecer-lhe”, Francisco se dirigiu aos seus companheiros: “Vamos despedir nossa irmã cigarra, que já nos alegrou bastante aqui com o seu louvor, para que isso não seja causa de vanglória para nós”. Assim, despediu-a, ela foi embora e não mais voltou.[11]

O tom geral das narrativas povoadas de pássaros, de peixes, de cordeiros, de rica variedade de animais, é de um relacionamento inteiramente espontâneo, casual e gratuito, embora contínuo. Ou seja, convivência não programada, acontecimentos em pura graciosidade, em clima de liberdade de quem não tem desejo de posse e por isso assegura liberdade e confiança ao animal. Os hagiógrafos insistem que os animais corriam para Francisco, queriam ficar em sua companhia, só saiam quando admoestados, como por uma “licença” e “obediência”, duas palavras recorrentes dos hagiógrafos nas relações dos animais com Francisco que vamos examinar logo adiante. Até aqui o mais importante é compreender que, para Francisco, a relação com os animais se dava na condição de sine proprium, sem apropriação, o que lhe permitiu uma fraternidade criatural e uma reciprocidade que transcende o sentimento romântico, com consistência ontológica e pureza ética: ele viveu como criatura entre as criaturas, numa aliança e fraternidade criatural.

A narrativa mais detalhada de aliança está em Fioretti XXI,sobre a mediação de Francisco entre o lobo e os habitantes da cidade de Gúbio. Além da beleza literária, da estrutura narrativa transparente, tem uma lição duradoura: seu desinteresse de sine proprium lhe dá autoridade na mediação de aliança e capacidade de exercê-la com justiça e sem humilhação, levando à reconciliação vantajosa para ambas as partes, o humano e o animal. 

3. A profundidade e a largura da obediência sem hierarquia às criaturas

O clima de reciprocidade e aliança, de dons e serviços entre humanos e animais não significa que os animais estão à disposição dos humanos. Sobre isso, há uma oposição frontal entre um dos escritos de Francisco e os escritos de seus biógrafos. A hierarcologia da natureza, de fundo platônico-agostiniano, continuava presente no século XIII através da Escola de São Vítor, e influenciou a forma como Celano e, sobretudo, São Boaventura, descrevem a relação de Francisco com os animais.[12] O raciocínio dos biógrafos é padronizado: Francisco, em sua santidade, é o homem reconciliado do paraíso reconquistado. É Adão redivivo na aurora paradisíaca do mundo, a quem todas as criaturas se submetem em obsequiosa obediência. É por isso que as palavras “obediência” e “licença” são tão recorrentes, com animais felizes e respeitosos, sempre prontos à obediência. Assim, por exemplo, São Boaventura:

São Francisco, tão admirável e verdadeiramente celestial, que abrandou a ferocidade dos animais ferozes, domesticou os animais silvestres, ensinou aos mansos e reduziu à sua primitiva obediência a natureza animal que por causa do pecado se rebelara contra o homem. Esta é a verdadeira piedade que torna amigas as criaturas.[13]

Ou ainda: “A compaixão fazia dele um outro Cristo, a amabilidade o inclinava para o próximo, e uma amizade com cada uma das criaturas lembrava nosso estado de inocência primitiva.[14]

Tanto para Boaventura, como para Celano, “os animais obedecem a Francisco porque Francisco obedece a Deus”.[15]  Para Tomás de Celano,

O glorioso Pai Francisco, caminhando na via da obediência e abraçando perfeitamente o jugo da submissão a Deus, obteve uma grande dignidade diante do Senhor, de tal modo que as criaturas lhe obedeciam (…) só pode ser santa uma pessoa a quem as criaturas obedecem.[16]

De forma mais refinada, Boaventura confirma:

Havia o santo chegado a tal pureza que unia a carne ao espírito e o espírito a Deus em uma maravilhosa harmonia, e se via obedecido, por sua vez, por ordem de Deus, assim que ele expressava um desejo ou uma vontade, pelas criaturas submissas ao Criador.[17]

Mas prestando atenção aos mesmos hagiógrafos em outras narrativas, e diferentemente dessa hierarcologia em que o santo homem ordena e os animais obedecem, eles são, ao invés, profusos em narrar o relacionamento de Francisco com os animais na forma de reciprocidade, relações de mão dupla, com mútuo carinho e ternura, mútua atenção e socorro, descrições de uma real fraternidade e sororidade como entre sujeitos de uma grande família. Os biógrafos empregam os melhores adjetivos para descrever a compaixão, o cuidado, a escuta e a comunicação não só de Francisco para com os animais, mas também dos animais para com Francisco, com reciprocidade e socialidade profusas, longe da afirmação agostiniana de que não há possibilidade de vida social e moral entre humanos e animais. Uma das narrativas mais famosas, que se repete em profusão e exemplifica esta postura de convivência e reciprocidade, é a “pregação aos pássaros”[18].

Para Francisco, os animais não são metáforas ou evocações da psique humana, nem são simplesmente espécies, mas individualidades reais, com autonomia e capacidade de reciprocidade, e respondem com sua própria linguagem às palavras e gestos que lhes dirigimos. A memória edificante que os biógrafos de Francisco nos legaram vai muito além de certa cacofonia da teologia escolástica que seguia a formalidade aristotélica e a hierarcologia platônico-agostiniana.

Mas há mais, o principal deste item: Francisco mesmo, em uma única frase de seu punho, vai bem além da reciprocidade, e aceita a possibilidade de inverter a hierarquia: e se os animais – e animais ferozes – dispusessem de nós como bem entendessem, reconhecendo que nisso estaria a vontade de Deus, acataríamos a obediência devida a eles – os animais − e a Deus? Esse estranho desafio é igual ao que Francisco narra em sua parábola da Verdadeira Alegria. Nessa parábola, ditada em um tempo de dificuldade real com os caminhos da nova Ordem, elaborada em forma de diálogo, ele imagina: E se ele e Frei Leão, frades da primeira hora, ao chegarem em plena noite de neve a seu lugar de origem, à Porciúncula, e fossem rejeitados e expulsos; e se eles se dessem conta de que seria Deus mesmo que os teria colocado nessa situação, como reagiriam? Na sequência do diálogo ele conclui que a verdadeira alegria é a paciência que suporta tal absurdo em paz no meio da desolação, como Cristo na cruz. No caso dos animais, ele nos surpreende no final do seu criativo Elogio das Virtudes, justamente ao falar da obediência:

A santa obediência confunde todos os desejos sensuais e carnais e mantém o corpo mortificado para obedecer ao espírito e obedecer a seu irmão, e torna o homem submisso a todos os homens deste mundo, e nem só aos homens, senão também a todas as bestas e feras para que dele possam dispor o que quiserem, até o ponto que lhe for permitido do alto pelo Senhor.

Nesse último elogio às virtudes, em que radicaliza a obediência, Francisco acrescenta ao elemento conhecido pela ascética de seu tempo – a mortificação do corpo, dos desejos sensuais e mundanos em obediência ao espírito – a obediência para além de uma obediência hierárquica, na obediência alargada “do corpo ao irmão” e “a todos os homens deste mundo”. A originalidade maior, porém, que aqui pode causar estranheza é a obediência “a todos os animais e feras”. Portanto, numa ordem cada vez mais “des-hierarquizada”, ou cada vez mais invertida.

O teste último, afinal, são os animais em sua bestialidade e ferocidade, não em sua beleza e mansidão doméstica. Como no caso da Verdadeira Alegria que reside na paciência, a verdadeira e mais radical obediência não reside em obedecer hierarquicamente quem está acima, mas o que é considerado o mais ínfimo, o animal feroz e perigoso – para que disponham tanto quanto for permitido do alto. Nesse final há uma evocação do Evangelho de João (Cf. Jo 19,11), quando Jesus está diante de Pilatos, submetido a um poder absurdo, mas pelo qual ele interpreta a vontade do Pai: o convite ao amor que abraça a cruz. Os animais, como o irmão e como todos os humanos, podem ser a cruz que devamos carregar como um desígnio do alto, vivido na obediência e na paciência amorosa. Portanto, nada de complacência estética ou afetiva, mas uma radical espiritualidade criatural.

4. O Cantor da fraternidade das criaturas 

Só no final de sua vida, aos 44 anos, depois de renunciar à liderança da nova Ordem, muito doente, quase cego, cheio de dores, na madrugada de uma noite de tormentos, Francisco compõe o Cântico das Criaturas. Na antípoda do possível romantismo de sua juventude, ele canta com sobriedade de adjetivos a fraternidade do sol majestoso, da lua e das estrelas preciosas, da água casta e do fogo alegre, do vento e nuvens e da mãe terra que dão sustento. Une ao louvor das criaturas o perdão e a irmã morte da criatura humana. É bem verdade que “toda paisagem amada é um estado de alma” (G. Bachelard), mas essa verdade indica uma forma da própria alma ser e se comunicar com a paisagem. No entardecer de sua vida, Francisco tem uma alma absolutamente desapropriada, simples e transparente, e emergem de sua alma simples os adjetivos com que associa as criaturas. Seu canto, marco inicial da literatura italiana, é a plenitude de seu caminho de desapropriação e de relações fraternais.[19]

Assim podemos concluir: a) Não um gênio naturalmente romântico, mas uma decepção, uma “desapropriação” e um novo olhar são a condição prévia ao modo de Francisco se situar e se relacionar com a natureza. b) Não a obediência hierárquica sugerida por Celano e Boaventura, mas a renúncia à apropriação é que faz emergir uma verdadeira relação fraterna, recíproca e de aliança com cada criatura, especialmente com cada animal. c) A sua fé, com a perseverança na desapropriação cada vez mais radical, abre à fraternidade universal não abstrata ou por generalidade, mas com cada criatura, até a mais distante – as estrelas − e permite assim que ele se torne a voz e a “boca do universo” − como afirma Agostinho a respeito dos que salmodiam. É assim que emerge, no momento de maior dor, o “Cântico das Criaturas”.


[1] Jacques Le Goff, Saint François d’Assise. Paris : Gallimard, 1999, p. 7.

[2] Cf. Lázaro Iriarte, Vocazione Francescana: Sintesi degli ideali de San Francesco e di Santa Chiara. Casale Monferrato: Piemme, 1987, p. 223; Margaret Wertheim, Uma história do espaço, de Dante à Internet. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. Seguindo as representações do espaço, categoria fundamental para entender “natureza”, a autora sublinha a passagem da representação simbólica para uma representação “fisicalista” cheia de consequências no começo do Renascimento.

[3] Cf. Laure Solignac, « François d’Assise, les animaux et l’obéissance ». In: Christus nº 21, Janvier 2014, p. 32.

[4] Cf. As pesquisas e publicações de Caetano Esser se tornaram exemplo da nova exegese. Cf. especialmente Origens e Espírito Primitivo da Ordem Franciscana. Petrópolis: Vozes, 1972.

[5] Cf. Aldir Crocoli; Luiz Carlos Susin, A Regra de São Francisco de Assis. Apresentação e comentários. Petrópolis: Vozes, 2013.

[6] Cf. Jean-Marie Roger Tillard, Diante de Deus e para os homens: O projeto dos religiosos. São Paulo: Loyola, 1975, pp. 118-119.

[7] Cf. Marc Charron, De Narcisse à Jésus: La quête de l’identité chez François d’Assise. Montréal/Paris: Paulines/ Cerf, 1992.

[8] Tomas Celano, Vita Prima, II, 3.

[9] Testamento, I, 1-3.

[10] Frei Francisco e o Movimento Franciscano. Petrópolis: Vozes, 1986.

[11] Tomas Celano, Vita Secunda, XXX, 171.

[12] Cf. Lázaro Iriarte, opus cit., p. 219.

[13] Legenda Maior, XIII, 11 – ênfase nossa.

[14] Legenda Maior, VIII, 1 – ênfase nossa.

[15] Laure Solignac, opus cit., p. 41.

[16] Vita I, XXI, 61.

[17] Legenda Maior, V, 9.

[18] Tomas Celano, Vita I, XXI, 58. Os parágrafos seguintes são também ilustrativos.

[19] Cf. Eloi Leclerc, O Cântico das criaturas ou os símbolos da união. Petrópolis: Vozes, 1999 (2ª ed.), p. 17 ss.


Kurzbeschreibung

São Francisco de Assis é patrono dos ecologistas e protetor dos animais por razões rigorosamente evangélicas. Despojado de sentimentos românticos, a condição que possibilitou uma relação fraternal com os animais e com todas as criaturas, não foi a obediência hierárquica do paraíso recuperado segundo seus biógrafos, mas a radical desapropriação e disponibilidade à fraternidade sem hierarquias, segundo seus próprios escritos. 

Author

Luiz Carlos Susin é capuchinho, professor na Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana, em Porto Alegre, Brasil. Foi professor convidado na Universidade Franciscana Antonianum de Roma. Entre suas publicações: A Regra de São Francisco de Assis. Apresentação e comentários (Petrópolis: Vozes, 2013) e A vida dos outros. Ética e teologia da libertação animal. São Paulo: Paulinas, 2015.

Kontakt

Rua Juarez Távora, 171 Porto Alegre-RS 91520-100 Brasil.



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Luiz Carlos Susin

« Sine proprium e irmão das criaturas »



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Concilium 2018-5.

Linda Hogan, João Vila-Chã, Agbonkhianmeghe Orobator

Francisco de Assis, segundo o medievalista Jacques Le Goff, desempenhou um papel original na passagem do século XII para o século XIII, “enriquecendo a espiritualidade com uma dimensão ecológica, a ponto de aparecer como o inventor de um sentimento medieval da natureza que se expressou na religião, na literatura e na arte”.[1] O cristianismo do primeiro milênio guardou prudente distância da natureza cósmica e ecológica com suas energias frequentemente obscuras, pois em relação à natureza sempre se reacendia uma perigosa divinização pagã. No entanto, nos séculos XII e XIII esse sentimento de risco de paganismo ia-se acalmando, o que possibilitava uma relação mais amigável com a natureza. Não durou muito, porém: já nos séculos seguintes, a natureza, desprovida de sacralidade, permitiu começar uma relação “coisificante”, de experimentação e exploração, que Francis Bacon, em 1627, expressou como violação, comparando a natureza a uma “mulher pública” que se deve torturar para penetrar e arrancar seus segredos. A conclusão não é agradável: em dois mil anos de cristianismo, somente naquele breve tempo, quase num intervalo entre o excesso de mistificação e o excesso de objetivação, teria sido possível uma relação amistosa com a natureza.[2]

No atropelo da modernidade a mensagem de Francisco de Assis ficou eclipsada. Voltaire depreciou o santo mendigo que exaltaria uma vida improdutiva. No século XIX, porém, cooptado pelo romantismo, Francisco ganhou a figura de “santo dos passarinhos”.[3] Há um grande risco de redução romântica, pois de fato a hagiografia e a iconografia de Francisco podem nos dar uma impressão de intenso romantismo. Seu relacionamento com os elementos da natureza, especialmente com cada animal, é descrito de forma tão fraternal e coloquial, tão terna e compassiva, às vezes tão íntima, que temos a tentação de perguntar o que é real em toda essa poesia sobrecarregada de afetos e exclamações. Num clima de redução romântica, a própria declaração de São Francisco de Assis como patrono dos ecologistas por parte de João Paulo II em 1979, poderia reforçar mal-entendidos.

Precisamos começar com uma distinção já consagrada dos textos que nos servem de fontes para procedermos com uma hermenêutica adequada. É lugar comum entre os especialistas, quando se trata de “fontes franciscanas”, a distinção entre os escritos do próprio Francisco e as biografias que foram sucessivamente elaboradas ao longo de mais de um século. Aplicaram-se às fontes franciscanas as mesmas regras do método histórico-crítico dos estudos bíblicos, e chegou-se inclusive à distinção entre o “Francisco histórico” e o “Francisco da fé”.[4]

Francisco não é um escritor, mas temos textos de seu punho ou ditados por ele, embora sejam poucos e breves: exortações, bilhetes, cartas, compilações litúrgicas, o testamento que é um memorial, e, sobretudo, duas versões da Regra. Estas tem um processo coletivo de elaboração e experimentação, mas onde o verbo se encontra no singular considera-se voz do próprio Francisco. Somente a segunda, mais sóbria, tem o selo pontifício. No entanto a primeira está mais próxima do processo e experimentação da forma de vida franciscana. Tem, portanto, autoridade hermenêutica.[5]

Já os escritos hagiográficos têm uma história dramática. Os autores ora se inclinam a um estilo “edificante”, devoto e poético, com certo sabor heroico, para exaltar o santo e entusiasmar o leitor, ora tem caráter polêmico, com a intenção de legitimar formas mais radicais ou mais moderadas de seguimento e continuidade por parte das gerações de frades que sucederam a Francisco. Desses autores privilegiamos aqui dois: Tomás de Celano, por ter sido contemporâneo de Francisco e seu primeiro biógrafo. E São Boaventura, quase quarenta anos depois, encarregado de terminar a polêmica na disseminação de biografias conflitantes. Ele escreveu com toda sua fineza teológica uma biografia que deveria ser única e definitiva. Escreveu duas, e cópias das biografias anteriores acabaram sendo preservadas da destruição, de tal forma que hoje temos uma variedade de autoridades documentais − com seus contextos − reunidas nas fontes franciscanas.

O que nos dizem as fontes sobre nosso tema – a relação com a “natureza” − quando utilizamos os escritos de Francisco e quando utilizamos hagiógrafos do século XIII?

1. Decepção e novo olhar: sine proprium

Os votos de consagração religiosa tiveram variantes até ao século XIII. E dos três que conhecemos hoje – castidade, obediência, pobreza – o mais variável em seu enunciado foi o de pobreza voluntária.[6] Nem mesmo hoje em dia a consagração à forma franciscana de vida inclui um voto de “pobreza” − e justamente para os herdeiros do Poverello de Assis. Desde a primeira regra franciscana, permanecendo na regra aprovada, se diz ao invés textualmente: sine proprium. Inclui pobreza voluntária, mas suas conotações exigem algo mais profundo: o despojamento interior, de mente e de afeto, a renúncia ao “sentido de propriedade” que inclui a deposição da soberania da subjetividade e da identidade. Se aos monges do primeiro milênio era suficiente o propósito de abraçar a obediência, no caso franciscano seria suficiente o sine proprium. Não é, porém, algo tão simples, pois é um gesto voluntário mas não voluntarista. Sua profundidade de desenraizamento pode ser comparável à kénosis do hino paulino em Filipenses 2, precedido justamente por uma exortação a imitar os sentimentos de Cristo. Historicamente, não apenas em Francisco, mas em Bento, em Inácio de Loyola, em Chiara Lubich, etc. este processo começa negativamente: uma doença, uma decepção, um choque, uma guerra.

Francisco começa com uma grave, prolongada e agônica decepção. Ela o atinge de todos os lados: o velho ideal de nobreza e cavalaria o leva à catástrofe da prisão e à doença. O ideal da burguesia em ascensão, representada pelos negócios de seu pai, não cabem em seu coração generoso. O ideal religioso da vida monacal que ele buscou conhecer de perto lhe soa pesado. As festas bancadas com o dinheiro de seu pai, que ele oferecia aos companheiros de juventude e que prolongaram sua adolescência, se tornaram insípidas. Francisco jaz inteiramente decepcionado, profundamente ferido em seu narcisismo e em sua mania de grandeza.[7] É nesse contexto de vazio existencial que Celano anota um passeio de Francisco convalescente:

Nem a beleza dos campos, nem o encanto das vinhas, nem coisa nenhuma que é agradável de se ver conseguia satisfazê-lo. Admirava-se por isso de sua mudança repentina e começou a julgar loucos os que amam essas coisas.[8]

Em conclusão, até o encanto natural e o justo sentimento romântico, com a devastação de seus ideais e de suas relações, se ausentam. Assim começa, muito além de um voluntarismo, o sine proprium

Mas a este lado negativo se junta nova experiência, que permite a Francisco lembrar em seu Testamento como uma graça de conversão, o início de uma vida em penitência:

Foi assim que o Senhor me concedeu a mim, Frei Francisco, iniciar uma vida de penitência: como estivesse em pecados, parecia-me por demais amargo olhar para leprosos. E o Senhor mesmo me conduziu entre eles e eu tive misericórdia com eles. E enquanto me retirava deles, justamente o que antes me parecia amargo se me converteu em doçura da alma e do corpo. E depois disso demorei só bem pouco e abandonei o século.[9]

A transformação do doce em amargo e do amargo em doce é uma excelente metáfora de conversão: expulso pelo acúmulo de crises de seu espaço e relacionamentos anteriores, Francisco vaga pelo lado de fora e começa a encontrar novos relacionamentos e novos significados. Nada mais volta a ser como antes: a Vita Nova se dá no sine proprium.

Isso tem repercussão na Regra. David Flood deu especial atenção à relação com os bens e ao programa de sustento econômico do movimento franciscano, desenhado nos capítulos 7 a 9 da Regra “não-bulada”.[10] Em síntese: Como “menores”, os frades não assumam chefias e considerem o trabalho como uma “graça”, pois há os que não podem trabalhar – entre os quais os leprosos. O fruto do trabalho é a subsistência para si e para os que não têm a graça de trabalhar. Mas não reclamem salário como um direito. Se não houver paga, ou se não for suficiente, vão pedir esmolas. O capítulo 9, sobre a mendicância, desenvolve o que podemos chamar de “teologia da Mesa do Senhor”, uma prática do Bem Comum: todos são convidados a trabalhar para a Mesa do Senhor, e a esmola também é para a Mesa do Senhor, que, aliás, deu o exemplo em sua vida terrena. Portanto a mendicância é também uma evangelização, o testemunho e a oportunidade de participação na Mesa do Senhor. Rompendo a relação de propriedade natural entre trabalho e fruto do trabalho ou salário, Francisco e o movimento franciscano anunciam uma economia sine proprium, economia radical do dom, longe da meritocracia do liberalismo moderno.

Entre as legendas hagiográficas está a narrativa que ilustra de modo bem humorado o sentido do sine proprium. Em síntese: o inocente e excêntrico Frei Junípero cozinhava para o grupo, e decidiu fazer uma sopa para um confrade doente. Passou a cerca, pegou o porco do vizinho e cortou-lhe uma perna, já que precisava só dela. O vizinho furioso veio acertar com o guardião e este repreendeu Junípero de tal forma que perdeu a voz. Então Junípero, já anoitecendo, trouxe um pouco da sopa para o guardião com o fim de suavizar sua gargante, o que fez o guardião lhe passar novo sermão e se negar a tomar a sopa. Então Junípero pediu-lhe candidamente que segurasse a vela pois ele mesmo tomaria a sopa! Esta narrativa mostra não só o sine proprium em fatos exagerados, mas a perda do sentido de propriedade, e, com isso, também a perda de sentido da hierarquia. O sine proprium se consuma onde há a perda de sentido da propriedade, e não só de si mesmo mas dos outros.

2. A relação sine proprium em aliança gratuita com os animais

Francisco não é somente patrono dos ecologistas, mas, anterior à declaração de 1979, ele é “protetor dos animais”. É absolutamente necessário observar que não se iguala ecologia e animais. Pois os animais não são parte da paisagem. Como nós, eles se movem na paisagem, buscam seu alimento, convivência, etc. Inclusive na Escritura os animais estão ao lado dos humanos, participam da aventura comum da vida, dos infortúnios e da alegria do sábado.

Pode parecer estranho que o santo protetor dos animais tenha prescrito na Regra, em primeira pessoa, uma firme proibição de criar animais e andar a cavalo:

Ordeno a todos os meus irmãos, tanto clérigos como leigos, ao irem pelo mundo, ou morarem em lugar fixo, que de modo algum criem qualquer animal, nem junto a si mesmos, nem com outra pessoa, nem de qualquer outra forma. Nem lhes seja lícito andar a cavalo, a não ser que se vejam obrigados por doença ou por grande necessidade. (Regra não-bulada, 15,1-2)

Quanto à proibição de não andar a cavalo, a interpretação mais recorrente é de que os “cavaleiros” tinham status de nobreza, o que não era mais o caso para quem se tornava um irmão menor, identificado com a população simples dos minores.  Mas também se pode interpretar as duas proibições num sentido único: evitar o domínio e a disponibilidade de animais para si. Trata-se da renúncia à posse e uso indiscriminado de animais. Caso de doença seria exceção. Ambos os interditos e, portanto, as renúncias exigidas, soam como uma indisponibilidade do animal ao arbítrio, ao comprazimento e até mesmo à comodidade humana dos frades.

Tais interditos podem ser mais bem compreendidos através de uma narrativa que os biógrafos repetem: Junto à Porciúncula, lugar de referência dos frades itinerantes, morava uma cigarra que costumava cantar com suavidade. Por certo tempo Francisco a chamava, ela pousava em sua mão e, à ordem de Francisco, ela começava a cantar enquanto o próprio santo juntava seu canto de louvor. Cantavam até que ele a mandasse de volta para seu lugar. Depois de dias nesse jogo de jograis em que − no dizer de Celano − “ela estava sempre pronta para obedecer-lhe”, Francisco se dirigiu aos seus companheiros: “Vamos despedir nossa irmã cigarra, que já nos alegrou bastante aqui com o seu louvor, para que isso não seja causa de vanglória para nós”. Assim, despediu-a, ela foi embora e não mais voltou.[11]

O tom geral das narrativas povoadas de pássaros, de peixes, de cordeiros, de rica variedade de animais, é de um relacionamento inteiramente espontâneo, casual e gratuito, embora contínuo. Ou seja, convivência não programada, acontecimentos em pura graciosidade, em clima de liberdade de quem não tem desejo de posse e por isso assegura liberdade e confiança ao animal. Os hagiógrafos insistem que os animais corriam para Francisco, queriam ficar em sua companhia, só saiam quando admoestados, como por uma “licença” e “obediência”, duas palavras recorrentes dos hagiógrafos nas relações dos animais com Francisco que vamos examinar logo adiante. Até aqui o mais importante é compreender que, para Francisco, a relação com os animais se dava na condição de sine proprium, sem apropriação, o que lhe permitiu uma fraternidade criatural e uma reciprocidade que transcende o sentimento romântico, com consistência ontológica e pureza ética: ele viveu como criatura entre as criaturas, numa aliança e fraternidade criatural.

A narrativa mais detalhada de aliança está em Fioretti XXI,sobre a mediação de Francisco entre o lobo e os habitantes da cidade de Gúbio. Além da beleza literária, da estrutura narrativa transparente, tem uma lição duradoura: seu desinteresse de sine proprium lhe dá autoridade na mediação de aliança e capacidade de exercê-la com justiça e sem humilhação, levando à reconciliação vantajosa para ambas as partes, o humano e o animal. 

3. A profundidade e a largura da obediência sem hierarquia às criaturas

O clima de reciprocidade e aliança, de dons e serviços entre humanos e animais não significa que os animais estão à disposição dos humanos. Sobre isso, há uma oposição frontal entre um dos escritos de Francisco e os escritos de seus biógrafos. A hierarcologia da natureza, de fundo platônico-agostiniano, continuava presente no século XIII através da Escola de São Vítor, e influenciou a forma como Celano e, sobretudo, São Boaventura, descrevem a relação de Francisco com os animais.[12] O raciocínio dos biógrafos é padronizado: Francisco, em sua santidade, é o homem reconciliado do paraíso reconquistado. É Adão redivivo na aurora paradisíaca do mundo, a quem todas as criaturas se submetem em obsequiosa obediência. É por isso que as palavras “obediência” e “licença” são tão recorrentes, com animais felizes e respeitosos, sempre prontos à obediência. Assim, por exemplo, São Boaventura:

São Francisco, tão admirável e verdadeiramente celestial, que abrandou a ferocidade dos animais ferozes, domesticou os animais silvestres, ensinou aos mansos e reduziu à sua primitiva obediência a natureza animal que por causa do pecado se rebelara contra o homem. Esta é a verdadeira piedade que torna amigas as criaturas.[13]

Ou ainda: “A compaixão fazia dele um outro Cristo, a amabilidade o inclinava para o próximo, e uma amizade com cada uma das criaturas lembrava nosso estado de inocência primitiva.[14]

Tanto para Boaventura, como para Celano, “os animais obedecem a Francisco porque Francisco obedece a Deus”.[15]  Para Tomás de Celano,

O glorioso Pai Francisco, caminhando na via da obediência e abraçando perfeitamente o jugo da submissão a Deus, obteve uma grande dignidade diante do Senhor, de tal modo que as criaturas lhe obedeciam (…) só pode ser santa uma pessoa a quem as criaturas obedecem.[16]

De forma mais refinada, Boaventura confirma:

Havia o santo chegado a tal pureza que unia a carne ao espírito e o espírito a Deus em uma maravilhosa harmonia, e se via obedecido, por sua vez, por ordem de Deus, assim que ele expressava um desejo ou uma vontade, pelas criaturas submissas ao Criador.[17]

Mas prestando atenção aos mesmos hagiógrafos em outras narrativas, e diferentemente dessa hierarcologia em que o santo homem ordena e os animais obedecem, eles são, ao invés, profusos em narrar o relacionamento de Francisco com os animais na forma de reciprocidade, relações de mão dupla, com mútuo carinho e ternura, mútua atenção e socorro, descrições de uma real fraternidade e sororidade como entre sujeitos de uma grande família. Os biógrafos empregam os melhores adjetivos para descrever a compaixão, o cuidado, a escuta e a comunicação não só de Francisco para com os animais, mas também dos animais para com Francisco, com reciprocidade e socialidade profusas, longe da afirmação agostiniana de que não há possibilidade de vida social e moral entre humanos e animais. Uma das narrativas mais famosas, que se repete em profusão e exemplifica esta postura de convivência e reciprocidade, é a “pregação aos pássaros”[18].

Para Francisco, os animais não são metáforas ou evocações da psique humana, nem são simplesmente espécies, mas individualidades reais, com autonomia e capacidade de reciprocidade, e respondem com sua própria linguagem às palavras e gestos que lhes dirigimos. A memória edificante que os biógrafos de Francisco nos legaram vai muito além de certa cacofonia da teologia escolástica que seguia a formalidade aristotélica e a hierarcologia platônico-agostiniana.

Mas há mais, o principal deste item: Francisco mesmo, em uma única frase de seu punho, vai bem além da reciprocidade, e aceita a possibilidade de inverter a hierarquia: e se os animais – e animais ferozes – dispusessem de nós como bem entendessem, reconhecendo que nisso estaria a vontade de Deus, acataríamos a obediência devida a eles – os animais − e a Deus? Esse estranho desafio é igual ao que Francisco narra em sua parábola da Verdadeira Alegria. Nessa parábola, ditada em um tempo de dificuldade real com os caminhos da nova Ordem, elaborada em forma de diálogo, ele imagina: E se ele e Frei Leão, frades da primeira hora, ao chegarem em plena noite de neve a seu lugar de origem, à Porciúncula, e fossem rejeitados e expulsos; e se eles se dessem conta de que seria Deus mesmo que os teria colocado nessa situação, como reagiriam? Na sequência do diálogo ele conclui que a verdadeira alegria é a paciência que suporta tal absurdo em paz no meio da desolação, como Cristo na cruz. No caso dos animais, ele nos surpreende no final do seu criativo Elogio das Virtudes, justamente ao falar da obediência:

A santa obediência confunde todos os desejos sensuais e carnais e mantém o corpo mortificado para obedecer ao espírito e obedecer a seu irmão, e torna o homem submisso a todos os homens deste mundo, e nem só aos homens, senão também a todas as bestas e feras para que dele possam dispor o que quiserem, até o ponto que lhe for permitido do alto pelo Senhor.

Nesse último elogio às virtudes, em que radicaliza a obediência, Francisco acrescenta ao elemento conhecido pela ascética de seu tempo – a mortificação do corpo, dos desejos sensuais e mundanos em obediência ao espírito – a obediência para além de uma obediência hierárquica, na obediência alargada “do corpo ao irmão” e “a todos os homens deste mundo”. A originalidade maior, porém, que aqui pode causar estranheza é a obediência “a todos os animais e feras”. Portanto, numa ordem cada vez mais “des-hierarquizada”, ou cada vez mais invertida.

O teste último, afinal, são os animais em sua bestialidade e ferocidade, não em sua beleza e mansidão doméstica. Como no caso da Verdadeira Alegria que reside na paciência, a verdadeira e mais radical obediência não reside em obedecer hierarquicamente quem está acima, mas o que é considerado o mais ínfimo, o animal feroz e perigoso – para que disponham tanto quanto for permitido do alto. Nesse final há uma evocação do Evangelho de João (Cf. Jo 19,11), quando Jesus está diante de Pilatos, submetido a um poder absurdo, mas pelo qual ele interpreta a vontade do Pai: o convite ao amor que abraça a cruz. Os animais, como o irmão e como todos os humanos, podem ser a cruz que devamos carregar como um desígnio do alto, vivido na obediência e na paciência amorosa. Portanto, nada de complacência estética ou afetiva, mas uma radical espiritualidade criatural.

4. O Cantor da fraternidade das criaturas 

Só no final de sua vida, aos 44 anos, depois de renunciar à liderança da nova Ordem, muito doente, quase cego, cheio de dores, na madrugada de uma noite de tormentos, Francisco compõe o Cântico das Criaturas. Na antípoda do possível romantismo de sua juventude, ele canta com sobriedade de adjetivos a fraternidade do sol majestoso, da lua e das estrelas preciosas, da água casta e do fogo alegre, do vento e nuvens e da mãe terra que dão sustento. Une ao louvor das criaturas o perdão e a irmã morte da criatura humana. É bem verdade que “toda paisagem amada é um estado de alma” (G. Bachelard), mas essa verdade indica uma forma da própria alma ser e se comunicar com a paisagem. No entardecer de sua vida, Francisco tem uma alma absolutamente desapropriada, simples e transparente, e emergem de sua alma simples os adjetivos com que associa as criaturas. Seu canto, marco inicial da literatura italiana, é a plenitude de seu caminho de desapropriação e de relações fraternais.[19]

Assim podemos concluir: a) Não um gênio naturalmente romântico, mas uma decepção, uma “desapropriação” e um novo olhar são a condição prévia ao modo de Francisco se situar e se relacionar com a natureza. b) Não a obediência hierárquica sugerida por Celano e Boaventura, mas a renúncia à apropriação é que faz emergir uma verdadeira relação fraterna, recíproca e de aliança com cada criatura, especialmente com cada animal. c) A sua fé, com a perseverança na desapropriação cada vez mais radical, abre à fraternidade universal não abstrata ou por generalidade, mas com cada criatura, até a mais distante – as estrelas − e permite assim que ele se torne a voz e a “boca do universo” − como afirma Agostinho a respeito dos que salmodiam. É assim que emerge, no momento de maior dor, o “Cântico das Criaturas”.


[1] Jacques Le Goff, Saint François d’Assise. Paris : Gallimard, 1999, p. 7.

[2] Cf. Lázaro Iriarte, Vocazione Francescana: Sintesi degli ideali de San Francesco e di Santa Chiara. Casale Monferrato: Piemme, 1987, p. 223; Margaret Wertheim, Uma história do espaço, de Dante à Internet. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. Seguindo as representações do espaço, categoria fundamental para entender “natureza”, a autora sublinha a passagem da representação simbólica para uma representação “fisicalista” cheia de consequências no começo do Renascimento.

[3] Cf. Laure Solignac, « François d’Assise, les animaux et l’obéissance ». In: Christus nº 21, Janvier 2014, p. 32.

[4] Cf. As pesquisas e publicações de Caetano Esser se tornaram exemplo da nova exegese. Cf. especialmente Origens e Espírito Primitivo da Ordem Franciscana. Petrópolis: Vozes, 1972.

[5] Cf. Aldir Crocoli; Luiz Carlos Susin, A Regra de São Francisco de Assis. Apresentação e comentários. Petrópolis: Vozes, 2013.

[6] Cf. Jean-Marie Roger Tillard, Diante de Deus e para os homens: O projeto dos religiosos. São Paulo: Loyola, 1975, pp. 118-119.

[7] Cf. Marc Charron, De Narcisse à Jésus: La quête de l’identité chez François d’Assise. Montréal/Paris: Paulines/ Cerf, 1992.

[8] Tomas Celano, Vita Prima, II, 3.

[9] Testamento, I, 1-3.

[10] Frei Francisco e o Movimento Franciscano. Petrópolis: Vozes, 1986.

[11] Tomas Celano, Vita Secunda, XXX, 171.

[12] Cf. Lázaro Iriarte, opus cit., p. 219.

[13] Legenda Maior, XIII, 11 – ênfase nossa.

[14] Legenda Maior, VIII, 1 – ênfase nossa.

[15] Laure Solignac, opus cit., p. 41.

[16] Vita I, XXI, 61.

[17] Legenda Maior, V, 9.

[18] Tomas Celano, Vita I, XXI, 58. Os parágrafos seguintes são também ilustrativos.

[19] Cf. Eloi Leclerc, O Cântico das criaturas ou os símbolos da união. Petrópolis: Vozes, 1999 (2ª ed.), p. 17 ss.


Résumé

São Francisco de Assis é patrono dos ecologistas e protetor dos animais por razões rigorosamente evangélicas. Despojado de sentimentos românticos, a condição que possibilitou uma relação fraternal com os animais e com todas as criaturas, não foi a obediência hierárquica do paraíso recuperado segundo seus biógrafos, mas a radical desapropriação e disponibilidade à fraternidade sem hierarquias, segundo seus próprios escritos. 

Auteur

Luiz Carlos Susin é capuchinho, professor na Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana, em Porto Alegre, Brasil. Foi professor convidado na Universidade Franciscana Antonianum de Roma. Entre suas publicações: A Regra de São Francisco de Assis. Apresentação e comentários (Petrópolis: Vozes, 2013) e A vida dos outros. Ética e teologia da libertação animal. São Paulo: Paulinas, 2015.

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Rua Juarez Távora, 171 Porto Alegre-RS 91520-100 Brasil.



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